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21 dezembro, 2012

sexta-feira, dezembro 21, 2012

MADRID - A cidade que nunca dorme!

 Estive em Madrid 04 vezes. Impossível fazer um roteiro completo para quem vai a 1ª.  2ª.  ou 3ª. vez.....o tempo será sempre pouco. De Madrid é possível sair de trem e explorar a Espanha e outros locais da Europa. Madrid tem uma energia que consome : é uma cidade “ligada” em 300volts...ferve...chamada de “la Movida”, reúne pessoas de todos os gostos: boêmios, intelectuais, urbanos, consumistas, jovens, maduros e, claro, flamenco com sofisticação. A cidade é um exagero e uma das mais agitadas capitais da Europa, vibrante, dinâmica, moderna sem deixar de preservar seu patrimônio histórico e cultural. Foi fundada pelos árabes como uma fortaleza e em 1561 foi transformada em capital da corte por Felipe II.
Aproveitando minhas boas recordações, fiz um roteiro simples para quem está “debutando” na cidade. Essa sugestão pode ser entre 4 a 7  dias de permanência na cidade. Claro que não estou mostrando nem 1/3 do que Madrid oferece, mas por ser uma cidade intensa, é melhor conhecê-la com algum planejamento. Tudo pode ser feito de metrô ou a pé. Depende de sua disposição e do roteiro do dia. O estilo de vida conhecido como “La Movida”, apareceu a partir de um “movimento etílico-cultural”, ou seja, os madrilenos propagaram a noite de Madrid para o mundo como a mais animada e boemia da Europa. Tive a chance de vivenciar isso....perambular pelas ruas entre “tapas e tragos”, a terminar a noite com chocolate e churros.  Na maioria das vezes estive sozinha, por isso optei em hospedar-me em locais bem centrais que me permitiam caminhar pela cidade e acessar tudo com muita segurança. Recomendo o Hotel Carlos V pertinho da Puerta de Sol. Para quem quer fazer compras também é uma excelente opção porque permite “ir e vir” várias vezes ao dia e não ficar carregando o peso das compras.
Vamos às sugestões bem básicas....
Dedique uma manhã para o “Prado”. Ou seja, não tem como ir à Madrid e não conhecer ou revisitá-lo. Um banho de arte e história. O Museu do Prado  tem maravilhas como "As Meninas" de Velásquez, El Greco, Goya , etc....Dedique uma manhã inteira porque é encantador...Uma aula de história que nunca veremos no Brasil, dada a concentração de obras de arte num mesmo ambiente. É uma das maiores pinacotecas do mundo, com mais de 9.000 obras. Aproveite também para caminhar no Paseo Del Prado, ao lado do Museu e Jardim Botânico. Caminhar pelas sombras das árvores muito antigas e apreciar os jardins...é a cara de Madrid e de uma sofisticação simples e marcante. Perto daqui encontra-se, a Fonte de Cibeles, toda em mármore, que representa a deusa Cibele (símbolo da Terra, agricultura e fecundidade). É aqui que a torcida do Real Madrid comemora suas vitórias.  Reserve uma manhã também para conhecer o Museu Reina Sofia. Especial porque abriga muita coisa da arte espanhola do século XX e arte contemporânea. Ter a chance de “ver” e ficar “chocado” com a Guernica, de Picasso, além de viajar no mundo de Salvador Dali  e Miró . São experiências que mexem com a cabeça mesmo. Um contraponto ao Museu do Prado.
Aproveite uma manhã (ou tarde) também para conhecer o Parque de  el  Retiro, onde os madrilenhos vão nos fins de semana para passear. Tem sempre alguma coisa acontecendo. Não deixe de visitar o Palácio de Cristal que fica no parque, todo em vidro, cercado por um lago, construído em 1887. Para o Palácio Real e adjacências, recomendo um dia inteiro porque vale a pena e cansa muiiittttoooo. O Palácio Real  foi uma fortaleza no século IX no reino muçulmano, depois um Alcázar (destruído num incêndio por volta de 1700) e finalmente conhecido por ser a residência oficial do Rei de Espanha (mas o rei Juan Carlos não vive lá!), tem museu com obras de Caravaggio (Salomé com a cabeça de João Batista), Velázquez e Goya. Caminhe pelas cercanias e encontre ali pertinho o Campo do Mouro e a Praça do Oriente onde ficam as esculturas dos reis espanhóis. Contornando, descubra a Catedral de Almudena, foi construída onde era uma antiga muralha árabe e onde fica o túmulo de San Isidro, padroeiro de Madrid e a imagem da N. Sra. de la Almudena em madeira prata. Em frente ao Palácio Real, fica o Teatro Real que merece a visita guiada. E depois de tanto andar...perto do Teatro, tem que parar para experimentar tapas no 100  Montaditos. São 100 tipos de tapas que podem acompanhar cerveja e vinho (no verão eu peço tinto de verano, um tipo de sangria que acompanha bem todas as tapas...e no inverno, um Rioja...). 



Pausa para as compras, porque ninguém é de ferro né?
Um “aparte” importante sobre compras na Espanha: claro que não é mais barato que nos EUA. E ainda os preços estão em EUROS. Mas, se você não tem previsão de ir às compras nos EUA, vai encontrar produtos muito mais em conta que os preços praticados no Brasil. O que eu recomendo, nesse caso é descobrir as lojas da “terrinha” e deixar as marcas americanas de lado. Algumas lojas são populares lá e de grande referência aqui. Eis as minhas preferidas:Bershka , do grupo Zara e preços bem em conta. Roupas transadas e modernas. Lefties, a ponta-de-estoque da Zara, que é a maior bagunça e cheia de pechinchas preciosas. Zara ...e Mango....precisa falar? H&M , tem várias em Madrid e de uma elegância europeia a preços fabulosos. El Corte Inglês, a mais tradicional loja de departamentos da Espanha. Tem de tudo. Tem ainda o desconto para turista. A dica é procurar setor de informações para preencher o cartão de desconto, além do TAXFREE. Vale a pena garimpar aqui.  Sephora .. ..a mais tradicional loja de produtos de maquiagens.
Bom, outra coisa que tenho por costume é comprar as revistas de moda na Espanha que trazem as principais tendências que somente chegarão aqui no Brasil quase 1 ano depois. Nas farmácias, compro indiscriminadamente água termal D’Avene...meu vício. Ok, então...depois desses pequenos segredos compartilhados, vamos às compras. Reserve um ou 2 dias para as compras (que podem ser poucos viu?) e não os misture com passeios culturais, pois um deles pode ficar comprometido. A Puerta  del  Sol é a central de Madri e point agitadíssimo.  É fácil localizá-la, pois lá se encontra o símbolo da cidade (a estátua de bronze do Urso) e no meio da praça, estátua de D. Carlos III. Também fica aqui pertinho o Hotel Carlos V. Tudo que for preciso ou desejado de comprar, tem aqui, ao redor da praça e nas ruas que dão acesso a ela. É aqui que ficam as melhores lojas das marcas espanholas. Depois que você enlouqueceu nas lojas, recomendo parar na Casa Labra e conheça o mais barato e mais gostoso bolinho de bacalhau do mundo...coisa de doido....ou então caminhe até chegar à Plaza Sant’anna para comer e descansar num dos cafés elegantes e animados. A Gran Via  também é uma grata opção, pois tem um comércio fabuloso. Começa na Calle de Alcalá e termina na Plaza de España. Pela Gran Via a gente sente a intensidade de Madrid, pois além do comércio, é aqui que ficam os cinemas e teatros.  Um pedacinho da Broadway. E na Plaza de España, onde fica a famosa estátua de homenagem ao escritor espanhol Cervantes, tem uma feira de artesanato no final da tarde. Sugiro que, depois de caminhar pela Gran Via e fazer comprar, reserve o final da tarde para conhecer a Plaza de España e depois vá ao show de flamenco mais tradicional da cidade (na minha opinião, claro!)...tem que ligar para marca, pois o local é pequeno e vive lotado..Las Tablas...  ao lado da Plaza de España.
 
Para as noites...prepare-se para um tour de tapas...coisa de Madrid..coisa de Madrileño...
Sabe esse costume de brasileiro de ir a um bar, sentar e esperar ser atendido pelo garçom? E ficar a noite inteira sentado num mesmo local? Esqueça!!!! Na Espanha as pessoas ficam de bar em bar....não sentam....ficam em pé, bebem, beliscam conversam e seguem para o próximo bar....Comece na Plaza  Mayor, um local de bares e lojas de artesanatos, mas que já foi o centro dos acontecimentos, desde canonizações a execuções públicas e  corridas de touros. Esta praça sobreviveu a três incêndios, é linda, toda fechada, ponto de encontro, e um lugar que dá acesso a várias ruelas onde descobrimos cada lugarzinho...aqui tem restaurantes e até dá para sentar e ficar um tempinho, antes de começar a peregrinação da noite....É aqui que ficam as lojas de artesanatos tradicionais da Espanha. Siga o fluxo e encontre o Mercado de San Miguel. Certamente estará lotado, mas é assim mesmo. Fique um tempinho bebericando cavas, manzanillas, sangria, cerveja.... e experimente tapas de frutos do mar. Bem animado é lindo e o máximo para sentir como vivem bem os madrileños!!.  Hora de caminhar....siga o fluxo e conheça o Bairro La Latina...para todos os lados, bares, bares e mais bares...lotados...continue e siga em direção da Puerta Del Sol...perca-se em Madrid...mas tenha em mãos um bom mapa para saber por onde você está se perdendo..chegue até a Praça Sant’anna e aproveite para sentar um pouco de beber mais alguma coisa..... E para finalizar a noite....Chocolateria San Gines   , fundada em 1890. O local parece sair de um filme antigo da época romântica....e geralmente está lotado de madrugada porque comer churros de madrugada é uma mania madrilenha.

Mais algumas idéias....
Em Madrid tem muitas opções de flamenco. Além de ver grandes apresentações, da ultima vez, aproveitei para fazer aulas particulares com o grande maestro e bailaor Joaquin Ruiz. Ele foi de uma simpatia única, pois além das aulas...conhecer a noite de Madrid com um nativo...é outra história. Incluir as aulas com o turismo é muito proveitoso, principalmente para quem viaja sozinho.  
Outra coisa bem interessante : conhecer a cidade de Toledo! Que no passado foi próspera e sob o reinado árabe (século VIII). Era conhecida, pela tolerância religiosa e tinha grandes comunidades judaicas e muçulmanas. No século IX foi conquistada por Afonso VI. A cidade ficou conhecida pela produção de espadas, facas e ainda hoje pode-se adquirir esse tipo de artesanato nas lojas locais. A cidade foi local de residência de El Greco no final de sua vida. É um passeio diferente e que remete a história que tanto falei nos posts de Andaluzia. É possível ir de ônibus de Madrid até Toledo, uma viagem que dura cerca de 75 minutos. É barato e seguro!


É isso, uma amostra do que fazer em Madrid em poucos dias!
Amigos, este post encerra o ano de 2012 como um presente de Natal para mim mesma!!!!. Como estive lá mais de uma vez, tive a chance de relembrar cada passagem e me encher de gratidão por todas as vezes que decidi sair do meu mundo e voar bem alto.....A cidade de Madrid instiga a ser um anônimo na multidão e instiga a pensar em “chutar o balde” e deixar-se levar pela “La Movida”....e esse sentimento é muito bom quando um ciclo se fecha (final de ano) e a gente começa a pensar em “possibilidades” surreais.....huummmm...vou para por aqui...porque isso tá com cara de previsão astrológica ou surto sabático!

25 outubro, 2012

quinta-feira, outubro 25, 2012

CHILE – Lagos Andinos e Santiago

Essa viagem foi um grande achado! Eu estava sem muitos recursos financeiros e me deparei com esse roteiro muito "em conta": BRASIL/BUENOS AIRES/BARILOCHE/LAGOS ANDINOS/SANTIAGO. Um roteiro pouco comercial, em que fui surpreendida durante 15 dias. Nunca imaginei encontrar tanta aventura, beleza e história aqui pertinho. Fui em pacote para os Lagos Andinos porque estava sozinha e fiz por conta própria a parte de Santiago. Mas tudo programado e reservado daqui do Brasil.
E como é diferente viajar sozinha pela Europa e pela América Latina! Na Europa é comum pessoas sozinhas em qualquer ambiente e em qualquer idade. Aqui tive algumas “olhadas questionadoras” das pessoas por onde ia (restaurante, vinícolas, etc), bem como no próprio grupo de latinos e brasileiros que conheci no pacote dos Lagos Andinos. Certamente que fiz boas e inesquecíveis amizades, mas eu era o único “ser” fazendo esse roteiro sozinho. E sempre tinha que responder a mesma pergunta: “Porque você está viajando sozinha?”.Isso não comprometeu em nada a viagem, pois além de desfrutar de um cenário encantador, que deve ser feito em qualquer situação (sozinho, casal, amigos, família), é uma escolha única para quem está de bem com a vida. E lá fui eu....
A chegada é por Buenos Aires para um curto espaço de tempo (se preferir pode esticar os dias em Buenos Aires). Para quem vai pela 1ª. vez, sugiro um city tour básico para conhecer a Casa Rosada, Catedral, Plaza de Mayo, Obelisco, Avenida Corrientes e 9 de Julho, bairros da Recoleta, La Boca e Caminito. Um pequeno espaço de tempo para a Rua Florida e as Galerias Pacífico. Um belo jantar com noite de tango e um maravilhoso café da tarde, no Café Tortoni (claro!). Injustiça resumir Buenos Aires assim, mas dedicarei outro post à altura da cidade. Prometo!!! 
Nem tudo é perfeito né? Pois então, ao chegar em Bariloche, descobri que o local era para casais em lua de mel e família em férias escolares (imaginem a minha situação!!!). O que me salvou mesmo foi saber que esse era o ponto de partida para os Lagos Andinos e aproveitar a neve pela 1ª. vez . Convenci-me que estava tudo normal, com ares de “Diva”. Aproveitei para comer de tudo e caminhar na cidade...afinal era a 1ª. vez que eu via neve! A sensação em conhecer a neve foi incendiária...à primeira vista senti o branco e o frio me queimando as vistas e o corpo. Aquela visão de que parece fofinho como algodão???? M-E-N-T-I-R-A . Totalmente branca e dura. Confortável de ver e desconfortável de sentir. Mas, na emoção, chorei, pois nunca pensei na vida em ver neve (clichê né?).
 
LAGOS ANDINOS....onde a viagem começou de verdade!
Então seguimos para os Lagos Andinos...cujo ponto de embarque era Bariloche, em Catamarã, pelo Lago Nahuel Huapi. Destino: Peulla, cruzando a Cordilheira dos Andes. A visão muda já na fronteira Argentina e Chile. Na Zona sul da Cordilheira do Andes conheci o “El Tronador”, um vulcão ainda ativo, que teve a ultima erupção há mais de 10.000 anos. Dizem que é baixíssima a probabilidade de entrar em atividade. 

A visão é assustadora e belíssima. Um misto de medo e prazer. Seguindo o percurso de Catamarã, vi uma natureza muito diferente e forte. Senti nos olhos o verde esmeralda das águas, o branco da neve e o azul quase celeste do céu, mistura exuberante de cores e sentimentos nunca dantes presenciados, mas de uma harmonia impressionante. Paramos em Peulla para um pernoite no Hotel Peulla, com estilo “ecoturismo”, e estrutura e serviços “impecáveis”. No dia seguinte, seguimos a rota cuja vedete desse trecho é Vulcão Osorno, considerado ativo e muito conhecido pela semelhança ao Monte Fuji (Japão). A cada instante, mais e mais impressionada com a rusticidade de Deus e a perfeição de sua obra. O Osorno tem uma neve constante em seu topo e a qualquer momento pode entrar em erupção, sendo a ultima registrada em 1869. Chegamos a Puerto Varas, uma cidade charmosa com arquitetura alemã, bastante turística e com restaurantes maravilhosos que “encerraram” maravilhosamente essa parte exótica e inusitada.









E fiquei pensando como traduzir e materializar essa beleza...tão sofisticada e simples de ser vista e difícil de ser sentida .... o verde esmeralda na água corrente reflete com uma intensidade que os olhos não acompanham. Não dá para sentir quente ou frio...é indefinido...o azul celeste do céu, bem poderia ser o azul do mar...no horizonte..quase impossível diferenciar....e o branco da neve, parece um abraço de Deus em tudo isso, um verdadeiro paraíso. Ah! Claro... El Tronador e Osorno...protegem e mantém o equilíbrio porque muitos acreditam que é onde o demônio descansa....deixo-os assim..por mais 10.000 anos...intocáveis....


O Chile e sua diversidade étnica...
Não sabia absolutamente nada do Chile, exceto sobra a fama dos vinhos. Quando cheguei à Santiago observei um povo “misturado”, com predominância do tipo “indígena”. Vi uma educação fantástica nas pessoas. Conheci um pouco de suas dores quando falam sobre o Golpe. Enfim... comecei a entender o Chile e sua história...forte e sangrenta....linda e cheia de riquezas....
Quando os espanhóis chegaram (sec. XV), encontraram um local povoado pelos Incase Mapuches. Mesmo confrontados pela maioria indígena, os espanhóis tiveram apoio de algumas facções das tribos, o que levou à Conquista Espanhola e escravização indígena para o trabalho de exploração de ouro e serviços domésticos. O ouro era o motivo maior de exploração do local, até se esgotar, quando então a economia ficou concentrada na mão de obra doméstica dos índios. Foi um processo natural o surgimento de uma camada mestiça que ascendeu às classes dominantes, formadas por filhos de homens espanhóis com mulheres indígenas. Com o tempo, esses mestiços queriam “branquizar” essas classes dominantes (que eles agora pertenciam) e no século XIX, o Chile passou a incentivar a vinda de imigrantes europeus com o objetivo de mesclar a população mais rica e branquizá-la. Então, formou-se uma elite “branca” de imigrantes, não necessariamente espanhola. E o povo com predominância indígena.
Em 1818 o Chile alcançou a independência. O que mais me marcou foi ver nas pessoas a memória dos 17 anos de ditadura militar (1973-1990), considerada uma das mais sangrentas do século XX na América Latina (o presidente eleito em 1970, Allende sofreu um golpe de estado pelo general Augusto Pinochet ). A história está impregnada nesse povo e a memória está viva. E aqui faço uma referência especial ao povo que vi no Chile : do motorista de taxi ao garçom do restaurante, todos sabiam falar sobre economia, política e história com uma coerência e patriotismo impressionantes. Povo culto, inteligente e sofrido que me ensinou como recomeçar e reconstruir, sem esquecer de seu passado. E estou falando de pessoas jovens! Estou me referindo à composição étnica da base da pirâmide, formada de índios. Quero afirmar que a educação no Chile fez e faz a diferença.
Alguns dias em Santiago.... 
Estive por conta própria, fazendo minha programação. Observei que os principais pontos turísticos estão bem próximos do Centro. Por isso fiquei hospedada no centro, no Hotel Majestic, porque assim eu poderia me locomover com mais facilidade (estando sozinha). Esse hotel é muito especial, pois, dentro dele tem um excelente restaurante de cozinha indiana. Fiquei cliente...jantei umas 3 noites lá.
Facilmente chega-se ao Palácio de La Moneda (sede do governo do Chile e do poder executivo) e pude ver o pátio. Bem perto dali fica a Plaza de Armas e tive a sorte de ver troca da Guarda. Caminhando encontrei o Mercado Central e fiquei cliente (fui almoçar lá uns 3 dias da estadia em Santiago). Uma infinidade de restaurantes com comida típica e muitos pescados. Aproveitei um dia bem “largo” para visitar calmamente o Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, que me pareceu ser bem completo sobre a cultura pré-colombiana. Tenho fascinação por essa cultura. Tirei um dia para visitar a vinícola Concha y Toro, muito conhecida no Brasil. Fundada em 1883, que eu além de vinhos extremamente sofisticados, tem um dos vinhos mais conhecidos aqui no Brasil, que é o Casillero del Diablo. Reservei outro dia para a vinícola Cousino Macul, que ainda hoje é administrada pela família fundadora (desde 1856). Por estar bem próxima da cidade, corre o risco de ser descontinuada por causa da poluição da cidade.
Subi o Cerro San Cristobal, um parque urbano de onde se tem a vista completa e cinzenta de Santiago. As compras de “regalos” foram um capítulo à parte. Em frente ao Cerro de Santa Lucía tem uma Feira de Artesanato maravilhosa e completa. Preços ótimos. O que mais se procura são os objetos e joias de lápis lázuli  (pedra azul encontrada no Chile e Afeganistão). Também visitei do Pueblito Los Dominicos que tem um artesanato bem variado e nesse local os artesãos se organizam como um ambiente de “povo do campo”, bem típico.
 
A antiga residência de Pablo Neruda, que hoje é um museu, fica em Isla Negra e é onde ele está enterrado. Conhecido e admirado mundialmente pelas obras, ainda tem sua memória muita viva nessa casa. Não sou uma conhecedora do poeta e escritor com a sensibilidade dos intelectuais, mas as horas que passei em sua casa, percebi que era um homem intenso, apaixonado, inconstante, incompreendido, insaciável, cheio de vida e de uma tristeza profunda (tudo ao mesmo tempo). Fui pesquisar mais sobre ele e li que Isabel Allende, em seu livro Paula, fala que Neruda teria morrido de "tristeza" ao ver dissolvido o governo de Allende. Já a versão do ditador Pinochet é a de que ele teria morrido devido a um câncer de próstata. Bom....isso não faz mais diferença...nem Nerudae nem Pinochet vivem....ambos passaram e suas histórias ficaram. Então....além de toda essa história belíssima, fui seduzida pelas livrarias de Santiago. Foram as melhores compras que fiz. Apesar do peso na mala, pude ter acesso a títulos em espanhol, mais que especiais, como por exemplo, o livro deGabriel Garcia Marquez   Memóriasde Mis Putas Tristes. Além disso, tem (a polêmica) Isabel Allende que me encanta profundamente e com ela aprendi a ler muito bem em espanhol. De uma sensibilidade e simplicidade. Uma novelista de primeira. Assim fiz esse tour...umas das muitas viagens que fiz sozinha. Descobri um inverno rigoroso, vi a neve pela 1ª. vez, vulcões adormecidos e águas de cor esmeralda. Apreciei vinhos e gastronomia. Perdi-me em Santiago e me encontrei nas grandes livrarias. Tive muitos dias que fiquei sozinha,  mas nenhum dia de solidão... Encantei-me com a história e a garra desse povo....voltei transbordando de vontade de explorar “outros mundos”....esse roteiro me trouxe coragem e me deu poesia para todos os outros dias do resto de minha vida.
 

29 julho, 2012

domingo, julho 29, 2012

ANDALUZIA – Málaga, um caminho para a África!

Conhecer Málaga foi uma oportunidade integrada com o curso de Flamenco do Festival de Jerez 2012 e a proximidade física para o Marrocos, com um detalhe: eu queria cruzar o Gibraltar pelo mar. A minha agente de viagens, Dayse - New Age, descobriu um grupo saindo de Málaga para o Marrocos no período que eu queria e de ferry boat...além disso, o custo terrestre era muito atrativo. Programei 2 dias de permanência em Málaga, antes de seguir para Marrocos.
Esta seria a 4ª. cidade de Andaluzia que eu teria a chance de conhecer e me aprofundar na cultura e na história. E claro, uma referência para aficionados pelo flamenco como eu.
Como tinha somente 2 dias, programei alguns locais para mais próximos do centro histórico para conhecer e aproveitei para explorar a cidade caminhando à noite. Era inverno e carnaval, por isso a parte litorânea não estava atrativa para mim. Concentrei-me na cultura e na gastronomia e confesso que o que mais me encantou foi a noite de Málaga. A cidade de Pablo Picasso e Antonio Banderas é leve, fácil, alegre e bem cosmopolita. Adorei a proximidade de tudo...todas as culturas lado a lado. Uma cidade descontraída onde as noites (mesmo de inverno) são quentes e animadas, regadas pelo famoso vinho Moscatel.
Como todas as cidades Andaluzas, aqui passaram fenícios, romanos e árabes. Também foi um berço para o desenvolvimento do flamenco, onde surgiu o VERDIALES, que é um cante folclórico, anterior ao flamenco, de grande influência árabe e em meados do século XIX aparece um baile chamado “MALAGUEÑA", procedente do FANDANGO. Ambos se aflamencam e fazem parte de nosso repertório de cante e baile flamenco. 
Além de ser uma cidade artística, moderna, turística por suas praias e sol e uma referência de flamenco, existe um patrimônio histórico e cultural que merecem atenção especial.
Comecei explorando a Calle Marques de Lários, onde existe uma concentração de comércio e bares/cafés e restaurantes, além de dar acesso à parte mais histórica da cidade. Toda a rua estava adornada para o carnaval e muitos blocos desfilavam um carnaval jocoso com musicas que faziam referência a “chistes” locais. Fiquei hospedada no hotel Bahia Málaga, muito próximo à Marqués de Lários e Avenida Principal, com excelente localização e quartos bem agradáveis.
Seguindo a Calle Marqués de Lários, encontrei o Monumento a Larios, do século XIX, dedicado a Manuel Domingo Larios y Larios quem construiu a dita rua (que leva seu nome). A Marques de Lários é excelente para acesso a vários pontos turísticos. 
Seguindo-a, descobri a Catedral que tem sua origem nos séculos XVI/XVIII e se chama “Encarnación”. No passado, foi uma Mesquita. A obra ficou inacabada, por isso seu apelido “La  Manquita”. Caminhando para depois da catedral, encontramos o Alcazar que deve ter sido construído entre os séculos XI/XIV e já foi um Palácio muçulmano e o Teatro Romano – do Século I AC, está aos pés do Alcazar. Pela história, sabe-se que foi da época de Augusto e depois foi utilizado para armazenamento de materiais do período muçulmano. 
Pelos arredores, é fácil encontrar o Museo Picasso, que fica no Palácio de Buenavista. Um prédio renascentista do século XVI que abriga a coleção permanente de Picasso (mais de 200 obras entre pinturas, desenhos, esculturas, etc), bem como peças fenícias.
E, claro, não poderia deixar de falar sobre o Museo de Arte Flamenco, "PeñaJuan Breva" que tem mais de 5000 peças, entre discos, guitarras, aparatos, adereços de baile, vestidos, etc, do período do século XIX/XX. No térreo do museu tem um bar e espaço para apresentações de flamenco.
A gastronomia é uma diversão à parte....muitos pescados e vinhos. Deliciei-me no Moscatel, o vinho mais consumido na cidade. E pelo frio que estava, caiu muito bem. Por isso que as noites são quentes....imperdível...não deixe de conhecer :

El Chinitas, fica no centro histórico, com acesso pela Calle Marques de Larios. Um local aconchegante, tradicional e de uma perfeição gastronômica, além do ambiente flamenco. Possui salas mais reservadas para grupos e uma decoração bem antiga. No térreo fica o bar o nos andares superiores o restaurante. Bastante romântico e recomendado para noites especiais. E ponto!
El Pimpi, é uma bodega mais que especial e me encantou. De noite, na parte interior, um ambiente típico andaluz, as garçonetes se vestem de flamencas, muita gente jovem e musica flamenca. Passei uma das noites mais relaxadas e alegres. De dia, de frente para o Teatro Romano e Alcazar, ao ar livre, um local de deleite visual e apreciação das tapas e, claro, famoso Moscatel...Esse local é para ir e ficar, sem pressa...e foi aí que me despedi de Málaga, mais uma janela Andaluza.
De Málaga, seguimos para Algeciras (onde fica o Porto de Tarifa – saída do ferry boat para Marrocos). Um pedaço de Andaluzia (Cadiz), Algeciras tem nome árabe, com sangue cigano. Cidade de Paco de Lucia ...quem compôs “Entre Dos Águas”....uma homenagem à cidade que fica entre as águas do Mediterrâneo e Atlântico...Algeciras nem está lá e nem cá..Algeciras...é a porta para um mundo diferente....é a porta para a África e uma nova aventura recomeça...brevemente Marrocos....


E a sequência Andaluzia chega ao fim...Falamos de Andaluzia com Flamenco e Turismo. Detalhamos Sevilha, Granada, Córdoba, Cadiz e Málaga....com tantas histórias e dicas, Andaluzia está muito bem retratada e divulgada por cada um que passou por aqui.
Para mim, a melhor definição de Andaluzia e a história de seus povos ciganos, árabes, judeus é que andar por suas cidades é ter a sensação de estar “retornando para minha casa”. Acredito que cada um que esteve aqui tenha a mesma sensação: uma experiência de vidas passadas. 
O povo flamenco é assim...ganha o mundo...vai para bem longe, mas sempre volta para sua casa, para os seus e para sua história. Somos muitos espalhados pelo mundo e sempre nos encontramos em algum ponto de Andaluzia para matar nossa saudade de outras vidas, como um povo que não se vê há muito tempo. E sempre seguimos para outras terras, levando nossa cultura e paixão.

12 julho, 2012

quinta-feira, julho 12, 2012

ANDALUZIA - Jerez...a minha Janela Andaluza que fechei...

Esse é um pedaço de Andaluzia muito peculiar. Os atrativos turísticos são mais visíveis para quem se identifica fortemente com a cultura flamenca, apesar de que, Jerez de La Frontera (que pertence à província de Cadiz), tem todas as influências muçulmanas e romanas das cidades de Andaluzia, cuja história se repete e se consolida com a sobrevivência dos excluídos e foragidos árabes, judeus e ciganos. É uma cidade rica culturalmente que deve ser descoberta e explorada turisticamente. Além da história, a cidade é conhecida pelo Circuito de Fórmula 1 e pelo vinho de produção local (Jerez). É muito boêmia. As noites de Jerez são um atrativo à parte, isso porque é uma cidade “esteticamente” cigana onde isso é percebido claramente na fisionomia, principalmente, dos homens e no comportamento “descompromissado” e “calmo” entre um trago e outro, o que também não seria impossível presenciar, de madrugada algum deles se exaltar e quebrar uma garrafa e começar uma briga...aquela coisa assim, bem passional. digna de gitanos....
Jerez é considerada a "Cuna del Arte Flamenco, pois foi aqui que surgiram muitos cantaores, bailaores e guitarristas, provenientes dos bairros de Santiago e São Miguel, onde faço uma referência especial à Lola Flores e Paquera de Jerez. Foi daqui que surgiu a Buleria, um tipo de baile festivo, da improvisação de grupos em festa, seja no canto, seja no baile. É uma brincadeira tradicional e muito comum, típico das famílias jerezanas.

Como fui parar em Jerez... 
A 1ª. vez (2011) foi uma decisão de “susto” e de “impulso”.  Normalmente, escolho circuitos comerciais e turísticos para férias, porém, Jerez apareceu sem férias, num dia normal de aula de flamenco onde a professora comentou que tinha saído a programação do Festival de Flamenco de Jerez e o quanto era enriquecedor “beber na fonte” o que buscamos.
Foi um delírio sonhar com a possibilidade. E não é que deu certo? Um pequeno grupo sonhou e foi ver o que era o Flamenco no seu berço. Decisão rápida, grupo formado e claro, dinheiro contado. Tive que praticar direitinho o “planejamento”, pois sequer eram férias e não tinha reserva financeira. Eu tinha 5 meses a contar da inscrição nas aulas do Festival para organizar-me financeiramente para a viagem.
A matrícula no curso é a 1ª. coisa a ser feita e aguardar confirmação. As turmas se completam rapidamente e não deve ser postergada. A minha decisão se baseou em fazer aulas e imersão total nos shows de Flamenco. Investimento necessário. Matrícula feita!!!!
O próximo passo foi comprar passagem (dividida em várias prestações) e fazer reserva de hotel. Recomendo os hotéis : Tryp e Tierras de Jerez muito bem localizados, confortáveis e preços justos. Afinal, seria um período intenso de atividades, além de ser inverno rigoroso. Escolhi esses hotéis (em 2 momentos diferentes, claro) porque me proporcionavam um conforto maior...e melhor descanso nos intervalos das atividades.
Apesar de ser um grupo, cada um optou em montar seu roteiro, mesmo assim, estaríamos juntos na semana do Festival e nas noites de Jerez. Muito providencial essa formação de grupo: todos vão para um mesmo local, porém, cada um com sua programação.  
Já em 2012, aproveitei a “desculpa” do Festival de Jerez e marquei férias para o período. E eu tenho um compromisso comigo : sempre conhecer outro local, antes de ir para Jerez ou retornar a qualquer cidade na Espanha. Assim, eu posso expandir meus conhecimentos sem deixar de fazer o que mais gosto. Falarei sobre o Marrocos mais tarde.

A dinâmica de Jerez é um pouco diferente das demais cidades.  Na época do Festival, cujo período é de um inverno rigoroso para os padrões brasileiros, a cidade fica “lotada” de aficionados pelo flamenco, de toda parte do mundo. A programação é intensa durante o dia e à noite.









Por toda a cidade escolas oferecem cursos, oficinas, intensivos e shows. Durante o dia, suamos enlouquecidamente nas aulas com nossos maestros e depois das aulas, uma parada para uma tapa e um trago...num frio de doer... À noite presença certa nos shows do Festival e na programação paralela, e depois vagamos de bar em bar entre uma tapa e um trago....e no dia seguinte...a mesma coisa...
Uma rotina insana para quem não entende nossa dedicação ao flamenco.  Mas tem também turismo de grande valor cultural que proporciona grandes surpresas para quem vai a 1ª. vez:
Comece pela Calle Larga, fácil de localizar e o ponto central de tudo em Jerez. Aqui ficam as principais lojas da Espanha e da Cidade, além de ser uma boa referência de bares e restaurantes. Excelente local para compras.  
Em Jerez, a ordem é caminhar! Descubra a Catedral de estilo barroco que também já foi uma Mesquita. Siga até o Alcazar que fica na parte antiga da cidade e tem referência do século XII, tendo sido residência de califas. A Mesquita agora é uma capela (desde a conquista dos Católicos, Afonso X).
Programe um Hammam (Banho Árabe) onde tem 03 piscinas com água quente, morna e fria, num ambiente a meia luz e massagem. Grande experiência e recomendado para qualquer pessoa que queira desfrutar de uma vivência especial dos costumes árabes.

Recomendo uma manhã para a visita na Bodega Tio Pepe onde o tour incluir degustação e por ser um vinho mais forte, não vá de estômago vazio. No final do dia, experimente Churros com chocolate quente, que no inverno é uma excelente opção.



A noite, veja a programação no Tio Zappa e na Peña de La Buleria. Se quiser algo mais requintado, visite o Teatro Villamarta  que no período do festival de flamenco tem shows todas as noites
Explore as praças das redondezas – A praça Plateros é belíssima e tem a Torre de Atalaya, com seu relógio do século XV. Em tempos antigos foi uma torre de vigia.
Calmamente, descubra as igrejas : Iglesia de San Dionisio, de Santiago, de San Miguel, de San Marcos, San Juan de los Caballeros o la Basílica de Nuestra Señora de la Merced.
É importante entender que Jerez se divide em 02 grandes bairros “ciganos” onde se situam os monumentos, igrejas e flamenco  : Bairro de San Miguel e de Santiago.
São os bairros mais antigos da Andaluzia, com suas ruas estreitas, sinuosas e deliciosamente confusas. É muito fácil e desejável perder-se nesses bairros e descobrir praças, igrejas, e construções antigas e típicas. Esses 02 bairros nasceram fora da cidade e foram povoados pelos ciganos e outros considerados indesejáveis. À noite, as cidades amuralhadas eram fechadas para aquelas minorias que não eram bem-vindas e consideradas perigosas, então essas pessoas passaram a viver “fora dos muros”, constituindo uma nova comunidade. Assim foi com São Miguel e Santiago. Por isso que não tem como separar o flamenco de Jerez... foram nesses  locais que o flamenco floresceu e passou a ser a cultura mais eloquente de Jerez. Lá pelos idos do século XV, quando a Igreja Católica se afirmava definitivamente, as comunidades que viviam “fora” dos muros da cidade (São Miguel e Santiago) cresceram muito e foram incorporados como bairros das cidades.

Em Santiago, descubra as Igrejas e Praças e não deixe de visitar o Centro Andaluz de Flamenco, com uma estrutura moderna e acervo para os diversos interesses da área. Em São Miguel, a igreja é imperdível e a Praça Afinal merece uma parada para um café, e claro, para os aficionados, o monumento em homenagem à La Paquera.
E, para entender o que tem em Jerez de tão especial, caminhe pelas noites, descubra as laranjeiras, as ruas estreitas, os bares cheios de ciganos. Jerez tem cheiro de Jerez, sabor de tio Pepe e tem perfume de história  e não ache estranho se você sentir voltando para casa num lugar tão distante do Brasil.

Andrea Pires

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