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18 março, 2016

sexta-feira, março 18, 2016

Ruínas de São Miguel Arcanjo - 7 Povos das Missões - RS

Em frente e enfrentamento.
Seguir em frente sem deixar o passado. 
Enfrentamento para sobreviver. Assim é o sul que tenho conhecido. Lugar de tantos conflitos históricos e povos tão distintos. O passado aqui é presente e o enfrentamento está no dia-a-dia das pessoas que ainda carecem lutar para sobreviver. A geografia, o clima e a história nos mostram que “enfrentar” e “seguir em frente” faz-se necessário, pois o perigo é iminente. Viver é perigoso. Érico Veríssimo retratou muito bem esse enfrentamento nas suas histórias romanceadas, com muita poesia e passionalidade de seus personagens, tão reais e tão criados. E por falar em passionalidade, eis que a Espanha está no Rio Grande do Sul, assim como Portugal está no Rio de Janeiro. (comparação minha). O Rio Grande do Sul começou espanhol e São Miguel das Missões mergulha nessa certeza. Viajantes amantes de história, tenho que dizer: foi um presente descobrir esse roteiro. Tomei conhecimento a pouquíssimo tempo que minha bisavó era índia e meu bisavô era espanhol. O que me causou um frisson danado, considerando minha paixão pela Espanha, a incessante curiosidade sobre a história e religiões e a necessidade de entendimento dessas misturas do Brasil. Eu estive lá. Eu vi.

As Missões
Conhecidas como “Uma utopia do Cristiano em construir uma terra sem males”, foi uma realidade. Foram 30 missões espanholas jesuítas (entre 1600 a 1700) distribuídas na Argentina (15), Paraguai (8) e Brasil (7), que existiram com o propósito de “civilizar” e “catequizar” índios Guaranis que tinham migrado para o Sul do país. Os Jesuítas se instalavam com as missões cujo modelo de organização social permitia preservar os valores indígenas e estabelecer códigos de ética que proporcionavam uma melhor aproximação deles com o “homem branco” e ainda doutrinava-os para o cristianismo.
No Brasil tivemos os Sete Povos das Missões. O Tratado de Tordesilhas dividia as terras entre Portugal e Espanha e o Rio Grande do Sul pertencia à Espanha, onde existiram os 7 Povos das Missões. Eles ficavam em São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio, todos fundados entre 1682 e 1.700. Essas Missões também protegiam o povo indígena que constantemente era ameaçado e escravizado pelos bandeirantes portugueses na região, apesar da região ser da Espanha. 
Dos 7 Povos das Missões, São Miguel Arcanjo está muito preservado sendo o mais importante sítio arqueológico no estado e declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, junto com ruínas no Paraguai, Argentina e Bolívia.  A organização urbanística de uma Missão (em cruz) tem uma lógica social e administrativa impressionantes: A praça era o ponto central onde havia jogos, reuniões desfiles militares, discussões e debates. O Conselho dos Caciques (que representava os interesses de seus grupos indígenas e tomavam decisões conjuntas para o povoado) ficava bem à frente da praça e da Igreja. 

Nesses povoados tinham tudo: cultivo, escola, impressão de livros e até observatório astronômico. As famílias eram organizadas em casas privadas e divididas de acordo com a estrutura familiar. O objetivo era evitar a poligamia. Cada casa abrigava uma quantidade máxima de pessoas. As mulheres e crianças sem família tinham moradias separadas (para evitar a violência).  A rua central era o meio da cruz. A igreja (construída pelo padre João Batista Primoli) teve somente trabalhadores na construção operários indígenas.  

Cada família tinha seu pedaço de terra para cultivo e também produzia no cultivo coletivo. Essa ideia de uma sociedade colaborativa por um tempo funcionou. Mas Portugal e Espanha, sempre em conflito, decidiram uma partilha. Lá pelos idos do século XVIII, é assinado Tratado de Madri (1750) que trocava a região dos 7 Povos das Missões para Portugal e da Colônia do Sacramento para Espanha. 
Os Jesuítas espanhóis e indígenas tinham que se retirar, porém, essa não era a vontade deles. Portugal e Espanha se unem para combatê-los, culminando a famosa Guerra Guaranítica que, lamentavelmente, dizimou toda uma história, os índios e deixou um rastro de destruição e sangue. A Companhia de Jesus foi expulsa de terras portuguesas e espanholas.  Fim do modelo missioneiro. Meados de 1800 Portugal anexou o Rio Grande do Sul, encerrando o ciclo espanhol no Brasil e os 7 Povos das Missões foram incorporados ao território. 
Toda essa história me foi contada pela Vera Lucia Dreilich, uma guia apaixonada. Caminhando pelas ruínas, ficamos amigas pela história.
SEPE TIARAJU – O Herói das Missões 
Ele ainda vive em todos os cantos da cidade.  Sepé nasceu em uma aldeia que foi atacada quando criança, deixando-o órfão. Os guaranis levaram-no para uma aldeia dos Sete Povos das Missões, onde foi adotado. Seu avô adotivo era um pajé muito poderoso e ele foi preparado para ser um pajé, mas acabou se tornando um guerreiro por causa da sua memória de revolta com os homens brancos.  Foi o grande líder da Guerra Guaranítica (de 1753 a 1756) que teve como estopim o conflito frente à assinatura do Tratado de Madrid por Portugal e Espanha e a expulsão dos índios da região. Sepé Tiaraju é lembrado grande líder e guerreiro, que enfrentou Portugal e Espanha e ficou famoso pela frase “Esta terra tem dono”, como resposta à expulsão declarada. Em 1756, na batalha de Caiboaté, Sepé Tiaraju morreu em combate, provavelmente numa emboscada. Depois disso, a história e a lenda se confundem: seu corpo nunca foi encontrado.



E onde entra Lúcio Costa?
Em 1937, o arquiteto Lúcio Costa (na época diretor de recém-criado SPHAN) foi convidado fazer o levantamento para preservação e recuperação das missões do Rio Grande do Sul, principalmente o sitio da igreja de São Miguel Arcanjo. Uma de suas propostas foi criar um museu para abrigar os objetos encontrados dispersos na região. Lucio Costa projetou o museu similar à casa missioneira, bem como se utilizou dos materiais das ruínas para construí-lo. Hoje o acervo abriga objetos e artes sacras conhecidas como “Barroco Guarani”, cuja representação ficou assim conhecida porque o rosto dos santos pareciam índios. Os índios (que aprendiam a esculpir com os padres) repetiam suas feições nas imagens. 

E olhando a maquete da organização da Missão observei que a ideia da cidade em cruz com uma organização social e urbana me lembraram muito a cidade que o próprio Lucio Costa projeto urbanisticamente (Brasilia).  Não posso afirmar se houve inspiração porque não vi nada registrado na história de Brasília, mas estou bem convencida dessa possibilidade.  
À noite é obrigatório ficar para o espetáculo e luz e som. A saga dos Guaranis e Jesuítas é narrada por vozes famosas (Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Paulo Gracindo, etc...) que interpretam os diversos personagens que são partes da memória.








Valter é um anjo e o mentor idealizador do Ponto de Memória, um projeto que emociona. Lá ele reúne objetos que fazem referência à história da região missioneira, seus habitantes e a presença de indígenas e imigrantes espanhóis. Um espaço mantido por ele com elementos e artefatos utilizados pelos que viveram lá entre os séculos XIX e XX, pós-expulsão dos jesuítas. Fui presenteada com uma aula de história e também com o ritual da Erva Mate. O local tem um espaço de casa de reza com todos os elementos para rituais de benzimento e purificação. “Água e fogo se juntam com a fumaça sagrada e aromas dos incensos”. Valter tem na sua memória os vários rituais indígenas que aprendeu com seus antepassados. Desde menino ele aprendeu a lidar com esses rituais.  
Finalmente descobri a origem do chimarrão e desse costume tão arraigado no Gaúcho: os guaranis já usavam a erva-mate na época que os espanhóis chegaram, juntamente com outras bebidas de efeito. 
O consumo tentou ser proibido pelos jesuítas, mas mudaram de ideia porque era melhor manter o consumo da erva-mate para descontinuar o consumo de bebidas alcoólicas pelos índios. Essa era uma bebida de coletividade e compartilhamento dos índios em rituais comunitários.  E vamos nos manter atentos, pois o Valter está ficando mais famoso: ele irá carregar a tocha olímpica na abertura das Olimpíadas junto com um Cacique, saindo das ruínas de São Miguel. Pensa num homem feliz?
Fechando o dia de cultura popular, dei uma passadinha na casa da D. Alzira, uma linda e simpática benzedeira da região que mantém viva a tradição e que sempre está de braços abertos..



E Como chegar nesse paraíso?
O acesso de ônibus é possível, de Porto Alegre até Santo Ângelo O ideal é fazer o roteiro completo das Missões que inclui Argentina e Paraguai, além do Brasil. A Missões Turismo,  do sr. Antonio Camargo oferece esse serviço com muita qualidade e simpatia. Ele mesmo é uma história viva. Cada minuto de prosa, uma vida inteira.
Mesmo de carro, fazer esse roteiro sem guia não vale a pena. A riqueza de detalhes da história é o ponto alto da viagem. Caso contrário, seriam só belas fotos.
É isso, meus amigos, o que encontrei nessa viagem tão perto e tão profunda de conhecimento?


A amplidão de céu, onde desfrutei da sensação de ter espaço (como em Brasília). Uma energia forte deixada pelos índios e um misticismo e devoção à natureza, onde o fogo é divindade e sagrado. Um encontro com a solidão ao caminhar e ouvir com perfeição o “nada” ou “meus pensamentos”, que se alimentam de descobertas. Encontrei muito chão, o que faz pensar nas várias opções de caminhos. E a melhor forma de traduzir essa viagem? Lembrando de uma frase que me foi presenteada e que não me sai da cabeça de jeito nenhum......“Sin Raízes no hay alas*”.

*esta frase, na verdade, é o nome de um livro que minha professora de flamenco e amiga Ana Medeiros me indicou há algum tempo. Essa busca pela história e pelas conexões faz parte desse livro que aborda as Constelações Familiares. Ainda não li o livro, mas essa frase não me sai da cabeça.

26 agosto, 2013

segunda-feira, agosto 26, 2013

PARIS – A cidade luz, a cidade mulher....

Não é fácil simplificar momentos especiais em tão poucas linhas, sem ser repetitiva e clichê, quando muitos estiveram lá e escreveram sobre ela.  Meu desejo era conhecê-la como ela merecia, mas, confesso, voltei com uma sensação de não ter feito 10% do que me propus. Vou explicar.
Cada um que lá esteve, cumpriu um roteiro e teve experiências muito pessoais. A cidade luz oferece uma variedade de opções que levam a descobertas sob muitos ângulos e várias perspectivas. Impossível Paris ser a mesma para 2 pessoas, mesmo que elas tenham estado lá no mesmo momento. Ela nos abraça intensamente, abrindo suas janelas do passado por qualquer caminho que se percorra e sempre com uma paisagem digna dos grandes impressionistas...Paris  nos leva a sonhar. E como muitos dizem por aí... uma cidade para ser visitada a vida inteira... A minha experiência veio carregada de grandes mulheres da história. Me acompanhou durante a estadia na cidade luz, na cidade mulher,  a maravilhosa biografia de Maria Antonieta do Stefan Zweig. Sempre tive curiosidade sobre a rainha que teve sua vida explorada e devastada em muitas versões sobre sua personalidade e seu comportamento frívolo e surreal que confrontou uma nação inteira. Ela entrou na França adorada e morreu repudiada, mas ainda hoje sua história é viva na França.  Luis XVI, um rei ausente e de pouca vontade (ou caráter?) e com grandes dificuldades em opinar, decide casar-se (por alianças políticas) com uma menina (da linhagem austríaca) que se transforma numa mulher oposta ao que ele representava: decidida, criativa, altiva, convicta, mas, sobretudo, ingênua e vazia que desfrutava da vida num mundo à parte, em Versalhes. Quando então, de uma forma dura e não tão digna ela é obrigada a migrar para Paris carregada pelas mãos da revolução. Transforma-se e se descobre “Rainha”, entendendo o que deveria ter sido seu papel na história. Tarde demais. As lendas sobre sua pessoa são maiores que a própria, tornando-a refém de seu passado. Uma rainha que tentou usar seu poder quando tinha perdido o reino. E, mesmo na pobreza, na falta de luxo e de poder, exaltava e exalava nobreza.  Luis XVI foi decapitado para dar lugar à Revolução. Mas o maior símbolo da monarquia era Maria Antonieta. Era fundamental que ela desaparecesse. Foi decapitada porque sua simples existência inviabilizava a revolução. O símbolo era maior que a liberdade. Tornou-se parte da cultura da França e uma figura histórica refletida em cada pedaço de Paris: luxo, cores, beleza, força, alegria e nobreza.  Seus momentos finais, já em Paris, me impressionaram. Então, passar no “Jardin des Tuileries”, reviver seus encontros secretos com o grande amor de sua vida, conhecer e passear pela Place de la Concorde e saber que ali ela foi decapitada, era percorrer esse pedaço da história junto dela, em direção à liberdade. No final de sua vida, entrega-se a esse amor impossível e sua cabeça é oferecida ao povo como uma vitória que duraria tão pouco tempo no seio de uma revolução, contaminada por intrigas e fragilidade do poder...mas Paris manteve-se nobre....
Chegamos à Paris...

O Hotel France Eiffel é muito parisiense. Simples, estilizado, localização ótima e numa zona residencial bastante agradável. Fica a 5 minutos da Torre Eiffel e bem pertinho da estação de metrô Bir Hakeim. Essa estação merece uma pequena explicação: ela fica no 15º. arrondissement onde, em julho de 1942, foi realizado o maior ataque contra os judeus na França, conhecido como Rafle du vel d’hiv ( Velódromo de inverno – Vel d’hiv).  No Velódromo os judeus ficaram retidos antes de serem enviados aos campos de concentração, passando fome, frio e terror. Uma barbaridade que ninguém esquece. O local foi demolido em 1959, mas a estação de Bir Hakeim mantém na sua plataforma um painel em memória ao Vel d'Hiv e homenageia aqueles que foram massacrados. E cada estação de Paris tem uma história, como se passado e presente convivessem ao mesmo tempo. Foi assim que eu e Ana Sofia decidimos seguir Paris: tínhamos apenas 5 dias para explorá-la e o metrô era nosso maior aliado....então seguimos a viagem, de metrô, olhando as janelas por onde passávamos.....

Janelas de Paris...
Na 1ª. tarde/noite, aproveitando a proximidade do hotel, seguimos para a Torre Eiffel, símbolo de Paris e que já foi cenário para vários filmes românticos. Imponente, tem uma vista peculiar: verão, turistas, cores e muita juventude, sempre abarrotada de apaixonados. Seguimos para o Trocadero, construído no alto da colina Chaillot, que fica de frente para a Torre Eiffel. Vista privilegiada e uma bela recepção da cidade. Jantamos no Le Malakoff (Place du Trocadero) onde experimentei uma “quiche de presunto e queijo com vin rosé” espetaculares!!!! Inclusive, essa foi eleita a bebida de Paris: vin rosé, extremamente refrescante e chique! E com o calor que fazia, caía muito bem no paladar.  Caminhamos para a chiquérrima Champs Éliséesque dispensa comentários, né?
Fechamos a noite no Arco do Triunfo, construído em comemoração às vitórias de Napoleão Bonaparte. Na base, tem o tumulo do soldado desconhecido de 1920.  No 2º. dia programamos chegar à Notre Dame! Claro que, aproveitando tudo o que tinha pelo caminho. Pegamos o metrô até Montparnasse e descemos a Rue de Reinnes onde há grande concentração de lojas maravilhosas (Sephora, Kiko, FNAC, Mango, Zara , etc), além de um aglomerado de farmácias cheias de coisas interessantes. Passamos pela Sta. Sulpice e descansamos no Café de Flore (Boulevard St. German)  um dos mais tradicionais cafe-brasserie de Paris. Conta-se que lá se reuniam grandes pensadores entre eles, o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.... Mas a meta era Notre Dame... conseguimos chegar já à tarde na catedral gótica, uma das mais antigas da França, de 1163 (seu nome significa Nossa Senhora). Fiquei admirando esse pedaço poético de história que inspirou Vitor Hugo a escrever (1831) o romance O corcunda de Notre Dame. Quem não se lembra daquele cenário onde o corcunda se apaixona pela cigana Esmeralda? Bem, como falei do início sobre as mulheres de Paris, foi em Notre Dame  que Joana d’Arc foi beatificada, em 1909. É a Santa padroeira da França e sua história nos diz que lutou como chefe militar na Guerra dos Cem Anos e foi queimada viva em 1431. Mártir e heroína, convertida em Santa!  Ai..ai....depois de muitas fotos, seguimos pela Ilê St. Louis/Rue St.Louis dedicando um tempo para apenas apreciar o caminho. Parada obrigatória para conhecer o famoso Sorvete Berthillon e eis que, de uma surpresa, me deparo pela 2ª. vez na vida (a 1ª. foi quando estive em Paris pela 1ª. vez e depois de ver o filme), com a casa que supostamente morou Abelardo e Heloisa....cujo romance começou em Paris no início do séc. XII :

“Abelardo, filósofo, teólogo, grande lógico e professor na Catedral de Notre Dame se apaixona por uma de suas estudantes, Heloísa,16 anos, cheia de vida, inteligente, curiosa e estudiosa. O relacionamento deles é descoberto por Fulbert, tio e tutor de Heloísa, que tenta de muitas formas por um fim nesse romance. Abelardo e Heloísa se casam em segredo e tiveram um filho chamado Astrolábio. O tio de Heloísa, revoltado, trama a terrível vingança : ataca-o enquanto dormia , castrando-o. Após a castração, Abelardo tornou-se monge e Heloísa torna-se abadessa no convento de Argenteuil. Abelardo e Heloísa nunca mais se falaram e atenuavam a dor que sentiam pela falta um do outro, dedicando-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, sem nunca trocarem uma palavra, mas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem e faleceu algum tempo depois, sepultada ao lado de Abelardo. Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo para colocarem Heloisa, encontraram seu corpo intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada da amada. E o filme que me emocionou tanto e me fez procurar pela casa na 1ª. vez que estive em Paris, chama-se “Em Nome de Deus”, de 1988, baseado nestes fatos reais. "Perdoe-nos Pai, por termos amado". Se é verdade ou não, não sei ....mas encontrar a casa deles (pela 2ª. Vez) e ainda rememorar outra mulher da França que passou por muitas dificuldades e encontrou sua liberdade depois da morte...isso foi mais que especial....



No 3º. dia começamos por Montmartre, Sacré Couer e Praça de Tertre. Para mim, Montmartre tem um charme muito especial por ter sido um bairro boêmio e ponto de encontro de artistas e intelectuais. Uma delícia entrar nesse mundo tão diferente e chegar à Sacré Coeur. A Basílica, inspirada na arquitetura romana e bizantina, fica na parte mais alta e contornando-a, chegamos à famosa "Place du Tertre" , bem no centro do antigo vilarejo. É pitoresco e rejuvenescedor ver artistas expondo e pintando, enquanto as pessoas tornam-se paisagem sentadas nos cafés que contornam a praça. Recomendo demais o Café La Mère Catherine”, fundado em 1793, reconhecido como o primeiro bistrô de Paris. Atendimento nota 10 e a comida, um prazer à parte. A tarde quente convidava à permanência nos cafés, mas tínhamos pouco tempo, então nos enchemos de coragem e seguimos ao Musée d’Orsay. Impossível visitar tudo numa tarde, então elegi o térreo onde para ver as esculturas de Rodin e a ala dos Impressionistas (Renoir, Manet, Monet, Van Gogh, Degas, etc....).



Só o edifício já é uma obra de arte à parte, pois fica numa antiga estação ferroviária - Gare de Orsay, transformada em Museu em 1977. De volta ao metrô, seguimos para a Iglesie Madeleine cuja impressionante arquitetura lembra muito um templo grego. É consagrada à Santa Maria Madalena, que muitos dizem que teria fugido para França após a crucificação. Os detalhes e as dimensões da porta de bronze e as imagens de santos e anjos são impressionantes. Já entardecendo aproveitamos para “passar” nas lojas de desejos (Printemps   e Galeries Lafayette), visitamos e compramos chás na Mariage Fréres. Fechamos  a noite em grande estilo e em comemoração ao nosso aniversário: jantamos no restaurante L’Opera no Palais Garnier .
E a maratona Paris chegava à reta final: no 4º. dia, segui para o Louvre, com o coração apertado por falta de mais tempo e visitei ala pré-islâmica, islâmica e fui rever a Grécia, Egito e Roma antigos. Fiz o caminho do Jardin des Tuileries, o jardim mais antigo publico de Paris, admirando a história de Maria Antonieta, até chegar à famosa pirâmide para entrar no Museu. No clima de despedida, segui para a Place de la Concorde e Champs Elisée. 
A Praça de la Concorde impressiona pela sua dimensão e só pessoalmente a gente entende o que os livros de história retratam: nesse espaço ocorreram grandes acontecimentos históricos. Essa praça era o ponto de passagem dos cortejos, depois foi local das reuniões contra a monarquia e logo em seguida, onde a guilhotina foi instalada. Muitos fantasmas e muito sangue derramado: Luis XVI , Maria Antonieta, Philippe de Orléans, Condessa du Barry e até mesmo o revolucuonário Robespierre...... A noite caía e calmamente fiz caminho de volta pensando no privilégio de estar ali e fazer de Paris um pedaço de minha historia.Ultimo dia, malas prontas e tínhamos um pedaço de tempo, pois nosso trem para Madrid partia às 16hs.

Decidimos ir à Igreja da Medalha Milagrosa, que por sinal, cuidado!!! sua localização é tão discreta que pode-se passar por ela sem encontrá-la. A história da medalha (1830) é a história da Irmã Catarina, jovem noviça das Filhas da Caridade que recebe mensagens da Virgem Maria, revelando sua identidade através da medalha, destinada a todos sem distinção! Visitar essa igreja escondida no meio de Paris causou-me um bem-estar gratificante. As irmãs são de uma simpatia ímpar e a energia da capela me tocou. Então saí de lá com mais uma mulher na história de Paris que me encantou!
E assim, Paris aconteceu para mim. A cidade luz, as janelas das histórias de Maria Antonieta, Joana D’Arc, Heloísa e Catarina me levaram a definir a minha Paris como eu defino uma mulher: sabe o que é, sabe o que quer, sabe o que pode causar nas pessoas.... é sutil e forte, aberta e misteriosa e está sempre pronta.
 
Uma pausa para minhas pequenas percepções (extremamente pessoais) de Paris:
A vantagem e desvantagem de sair de TAP de Brasília direto para a Europa
Essa opção é muito boa mesmo e extremamente confortável. A ressalva que faço é uma crítica à falta de concorrência. O embarque de Brasília é adequado em atendimento e o serviço de bordo muito bom. Mas, a chegada a Portugal para as conexões e o retorno para o Brasil (Madrid/Portugal), é lamentável. Observei  passageiros serem maltratados. Fiz esse trecho umas 4 vezes e, dessa ultima vez, fiquei chocada com a falta de qualidade, bom senso e educação por parte dos funcionários da TAP.  Pergunto-me: como uma empresa do porte da TAP não oferece um serviço pelo menos “adequado” ao cliente depois que ele sai do Brasil? Gente, a Europa inteira está em crise e são os países emergentes que estão injetando recursos financeiros que geram empregos. E essas pessoas que (por uma sorte danada) estão empregadas, demonstram o quanto estão insatisfeitas em terem que trabalhar!!!  Já vi esse filme, e é uma questão de tempo a empresa entrar em declínio né? Se não mudar, morre! Pois a comunicação e o marketing da TAP para seus serviços não condiz com padrão que pratica, e não adianta você dizer que é bom! Você tem que mostrar!!!!! Prontofalei!!!!
Programação e Tempo
 Não dá para fazer tour nos principais monumentos e flanar pela cidade sem compromisso com tão pouco tempo. Tentamos fazer isso, mas ficamos exaustas. Minha recomendação é: ou se compromete com os monumentos ou descobre Paris descompromissadamente....Outra coisa: a hospedagem é fundamental para quem quer fazer compras, pois você poderá ter que voltar ao hotel algumas vezes para deixar pacotes. Quanto mais perto da região de compras, melhor. E, não misture compras com visitas a monumentos. Separe e organize os dias para que você possa fazer tudo com prazer e sem dor!
A receptividade dos parisienses com o turista
Muito interessante o esforço do parisiense em ajudar (em alguns locais) e trabalhar para o turista. A fama de Paris é de que o turista é mal tratado. Eu vi isso em alguns casos e foram pontuais. Mas a barreira cultural encravada na personalidade do francês fica nítida pelo desconforto que ele demonstra ao ter que atender e servir asiáticos ou sul-americanos. Essa foi para mim, uma comprovação da mudança de dinâmica de poder mundial, onde países emergentes estão assumindo papeis mais importantes no mundo e se fazem presentes!
Mulheres....

As mulheres são um capitulo a parte. Uma elegância que se destaca no inverno, mas no verão, se superam em criatividade e descompromisso com as regras. Enquanto no Brasil as mulheres estão preocupadas em se cuidar para mostrar pernas e corpo, sempre tentando ser igual alguém na TV, em Paris (ou Europa!!!) o estilo é pessoal e intransferível.  Elas eram coloridas e nada combinando! Sem regras, mas com bom gosto. A relação delas com cabelo é indecifrável. Cabelos lisos e mechados????? Esquece...os cabelos delas tem personalidade, são naturais, arrumados bagunçados, cores diversas, tamanhos variados...enfim...os cabelos são parte de suas personalidades. Certamente, ditarão a moda por aqui. Estilo! Liberdade de ser e estar. Descompressão total. São femininas e charmosas com muito menos produção. São únicas. A despeito da cultura onde há um “que” de superioridade, essas mulheres de qualquer local, olham para frente e tem uma aura de nobreza... o que vi enquanto degustava meu vin rosé : mulheres seguindo em frente!
 
e essa viagem eu dedico à minha mãe, que provavelmente nunca conhecerá Paris, mas que sempre me ensinou ser nobre e seguir em frente!

31 março, 2013

domingo, março 31, 2013

Rio de Janeiro - RJ – para os amantes da história... Circuito da celebração da herança africana

Morro da Conceição e arredores – Praça Mauá, Saúde e Gamboa
Desafio enorme trazer para o blog um roteiro sobre o Rio de Janeiro, minha cidade Natal. Eu não o conheço com legitimidade para falar. Por isso, convidei minha prima irmã que vive o Rio de verdade e que tem uma paixão avassaladora por história e pela história do Brasil. Então, mantendo meus princípios de “realidade” e “possibilidades” com o blog, faço questão de mostrar o Rio de Janeiro mais que encantador, que ainda vou conhecer, mas que não tem a visibilidade merecida. Será que as pessoas sabem que o Império e seu legado estão na zona norte do Rio de Janeiro? E não estou falando de turismo de gringo em favela pacificada, estou falando da história da Família Real no Brasil, onde tudo começou. É lá, em São Cristóvão e arredores que está a “jóia” da coroa quando se fala da história do Brasil, porque era lá que a vida seguia com suas agruras, culturas mescladas e a formação da nossa sociedade. Esse roteiro é para quem gosta de “viajar”(em todos os sentidos!). Conhecer com quem é de lá, tem um gosto especial: beber na fonte com taça de cristal! Esse tour (de 1 dia) pode ser acoplado a qualquer tempo que você esteja no Rio. Além das maravilhas que já conhecemos e das praias badaladas, fazer esse tour pode ser um encontro com nossas raízes mais distantes...então...boa viagem com Márcia Almeida....
 
“Trabalhei, por muitos anos, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Da janela da minha sala, tinha uma visão dos morros da Providência e da Conceição. Já havia visitado o Morro da Providênciae nem sabia o nome do morro que ficava bem na frente do prédio (era o Morro da Conceição). Da janela, sempre via uma espécie de sobrado no alto, cercado por mato e muita sujeira, além de um pedaço de um observatório, no cume. Descobri que na altura desse sobrado, com muros em pedra e uma escadaria enorme, eram feitas as vendas no mercado escravo. Aquelas casas em ruínas e abandonadas, haviam sido um centro comercial de vidas humanas. Soube também que o mar chegava bem perto dali. Era um cais onde ancoravam os navios negreiros e de cargas. Após alguns anos, descobri várias histórias sobre o Morro da Conceição e a que mais me alegrou foi saber que não se tratava de um morro comum, como as chamadas favelas. Sim, lá as ruas são de paralelepípedos e as moradias são pequenos sobrados da época colonial do Brasil. Esse morro é um dos quatro onde se iniciou a colonização da cidade do Rio de Janeiro. Por estarem localizados estrategicamente em pontos que auxiliavam a defesa contra invasores, os Morros do Castelo (onde realmente se iniciou a ocupação da cidade), de Santo Antônio, de São Bento e da Conceição, eram os lugares mais seguros para que a população se alojasse. Área nobre nos séculos XVII e XVIII, o Morro da Conceição teve sua ocupação ligada a ordens religiosas e militares. Sempre fui muito interessada pelas histórias passadas. Comecei nas Grandes Guerras Mundiais, com afã de saber o que se passava na cabeça dos moradores das redondezas dos campos de concentração. Depois meu interesse se voltou para a vida dos escravos negros no Brasil e no mundo. Precisava saber como eram capturados, como sobreviviam ao transporte subumano e como era sua “adaptação” ao trabalho escravo. Com a escolha do Rio para sediar a Olimpíada 2016, começaram as mudanças. Uma delas foi a revitalização da zona portuária, começando pela Praça Mauá e pelo Morro da Conceição. Foi aí que uma porta se abriu para mim.
 
A descoberta do roteiro

Pelo Facebook, indicado por uma amiga/sobrinha (Rosane Nunes), soube de um guia que estava realizando um passeio guiado pelo Morro da Conceição. Convidei minha irmã Regina e fomos ao encontro do César Matos 
(roteirodoporto.blogspot.com/
celular21-6841 3932),
morador do morro e guia registrado. Antes de começar o roteiro, ele se apresentou e nos ofertou uma medalhinha de Nossa Senhora da Conceição, um mimo, que apesar de não ser católica, manterei guardada para sempre.  O circuito começa nas escadas que dão acesso ao morro, na Travessa do Liceu. É aqui que fica o Atelier Gaia - Casa de técnicas e Artes que além dos trabalhos expostos, possui cursos de fotografia e restauro, assim como o  Imaculada - Bar e Galeria, onde se pode saborear delícias, curtir música ao vivo e exposições (onde terminamos a noite, ao som da Roda de Samba do Sant'Anna. Subindo a Ladeira João Homem, nos deparamos com os sobrados, mesmo com alguns bem alterados em sua arquitetura, mas de beleza, simplicidade e encanto... Ali me dei conta de uma das mais belas vistas, onde pude observar, o interessante e belíssimo contraste, entre o atual e o antigo na arquitetura da cidade.  Alguns desses sobrados são ateliês, como o Atelier Paulo Dallier, um dos mais belos e emocionantes trabalhos que vi. Além da atenção e espontaneidade desse artista plástico, nos permite o livre acesso ao atelier que também é sua residência. Destaque para belo visual da Baía de Guanabara e arredores da Praça Mauá em seu terraço. Chegando ao topo do morro, encontramos a Praça Major Valô (ou Praça da Conceição) que é na verdade, um largo. No centro a figura imponente da imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do lugar. É nesse largo que fica a abandonada e antiga residência, do rico mercador de escravos, João Homem.
 
 
A história do Morro da Conceição e suas peculiaridades
Antes construída no Morro de São Bento, após a doação da área aos Monges Beneditinos, a ermida dedicada à N. Sra. da Conceição, padroeira de Portugal, é transferida para o morro em frente em 1634, que passa a se chamar Morro da Conceição. Poucos anos depois a ermida e respectiva chácara, de propriedade de um português, são doadas à Ordem do Carmo. Alguns anos depois passa a ser a moradia do bispo D. Francisco de São Jerônimo (cujo corpo foi sepultado no interior da Capela do Palácio), de onde surge o Palácio Episcopal da Conceição.  O edifício foi utilizado como residência até a transferência da sede para outro local No início do século XVIII, após nova invasão francesa, debelada pelas forças de Portugal é iniciada uma “muralha” destinada à defesa da cidade pelo lado de terra. É construída a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, devido à necessidade de instalar canhões em um local alto o suficiente para varrer com a sua artilharia o trecho da orla marítima que se estendia do Valongo (hoje Av. Barão de Tefé) à Praça Mauá. Essa fortaleza, construída nos fundos do terreno da ermida, descaracteriza a construção anterior. Em 1718, por ordem real, calaram seus canhões para não perturbar os religiosos vizinhos. Ficando dessa forma, conhecida como a única fortaleza, que nunca disparou um tiro de canhão. O “Portão de Armas”, ainda localizado no mesmo local, desde 1718, encontra-se em perfeito estado de conservação. Há ainda necessidade de falar da alta muralha de pedra, com quatro ângulos fortificados e um baluarte em cada ponta. Enquanto caminhávamos dentro da fortaleza, conhecemos um pouco da época religiosa da construção e da sua utilização como área militar. Duas características tão diferentes e distantes, situadas em um mesmo lugar, com um planejamento que não chega a nos fazer sentir como se estivéssemos em dois mundos completamente diferentes. A paz que representa o antigo Palácio Episcopal, e a guerra representada nas fábricas de armas e nas masmorras onde estiveram aprisionados representantes da Inconfidência Mineira, são bem dispostas de forma a não causar nenhum tipo de sensação ruim à nós. A antiga Capela, ainda preservada, hoje é a Biblioteca do local. E existe um pequeno museu cartográfico, com detalhes do início desse serviço no Brasil. FOTO 17/18/19. Tanto eu como minha irmã Regina, nos sentimos bem emocionadas, principalmente quando entramos na masmorra onde esteve, comprovadamente, o último prisioneiro do tempo da Inconfidência Mineira, Thomaz Antonio Gonzaga , que dizem por amor, escreveu em suas paredes um trecho do poema Marília de Dirceu
“Por morto, Marília, aqui me reputo: Mil vezes escuto o som do arrastado, e duro grilhão. Mas, ah! Que não reme, não treme de susto o meu coração. A chave lá soa na porta segura; abre-se a escura, infame masmorra da minha prisão. Mas, ah! Que não treme, não treme de susto o meu coração. Já o Torres se assenta; carrega-me o rosto; do crime suposto com mil artifícios indaga a razão. Mas, ah! Que não treme, não treme de susto o meu coração. Eu vejo, Marília, a mil inocentes, nas cruzes pendentes por falsos delitos, que os homens lhes dão. Mas, ah! Que não treme, não treme de susto o meu coração. Se penso que posso perder o gozar-te, e a glória de dar-te abraços honestos, e beijos na mão. Marília, já treme, já treme de susto o meu coração. Repara, Marília, o quanto é mais forte ainda que a morte, num peito esforçado, de amor a paixão. Marília, já treme, já treme de susto o meu coração.” 
Voltamos à Praça Major Valo, aonde chegamos à famosa Rua do Jogo da Bola cujo nome tem várias explicações: relativos aos escravos que se divertiam acorrentados a uma bola, ou um jogo de “bocha”, praticado pelos moradores portugueses..., vai saber! Essa rua tem uma magnífica vista da região portuária, acompanhando a muralha de pedra da Fortaleza da Conceição. E nos deparamos com mais um conjunto de casas antigas, com suas semelhanças aos tradicionais bairros de Portugal. Apesar das transformações urbanas ao seu redor, o Morro da Conceição permanece como lugar de moradia, nos fazendo sentir no interior, em plena cidade grande. Algumas com as datas de construção ainda em destaque, outras com pequenas modificações, mas uma em particular chamou a atenção de minha irmã Regina. As telhas do beiral. Quando ela me chamou não acreditei no que estava vendo. Telhas pintadas em tons de azul, combinando com a cor da casa. Fiquei sabendo que essa era uma casa de senhores portugueses de posses, pois esse tipo de telha era encomendado pelos moradores. Outro mimo doce e agradável foi a paradinha na casa do nosso guia, para recarregar nossas energias. Um lanche da tarde, embaixo do pé de graviola e com a vista do porto, bastante agradável. 
Seguimos pela Rua do Jogo da Bola, e paramos na pequena capela em homenagem à Nossa Senhora da Conceição,construída no topo do morro, em 1590, pela devota Maria Dantas. Ao final uma pracinha, com uma bela vista, onde o clima interiorano nos faz desejar ainda mais morar por ali. Depois fomos ao Observatório do Valongo, inaugurado em 1924, sede do Departamento de Astronomia da UFRJ. Foi então que, na curva para a entrada do observatório, me deparei com a paisagem onde podia ver o prédio no qual trabalhara por tantos anos e a sala de onde observava aquele local, com tanta curiosidade. Foi meio que um choque. Tudo muito diferente.   
 
E a história viva, impregnada e com o choro do samba...
Então começou a parte que realmente mais me emocionaria. Não que nada já visto até aqui, tivesse passado em branco, até porque acho que detalhei em minhas impressões e emoções.  Mas descer as escadarias em direção ao ponto em que me referi no início do “post”, onde me embevecia só de imaginar aquele local em sua plenitude, estava sendo muito especial para mim. Eis que chegamos a parte alta do “Jardim Suspenso do Valongo”.  E eis uma foto, do que eu costumava ver, e do que estava vendo naquele momento. Claro que é um trabalho possível, mas da janela do prédio ao fundo, eu nunca imaginei que veria esse lugar tão lindo! Esse jardim fica, exatamente, em um ponto em que era feito o mercado de escravos, no século XIX, mas foi inaugurado em 1906, com o alargamento da Rua do Valongo. Ao lado dele ainda existe um casarão em ruínas, que foi pintado por Debret, e a praça onde antigamente era realizado o comércio, sendo extinto oficialmente, em 1831.  No jardim, passeava a nata da sociedade brasileira, e faziam parte desse jardim, a Casa da Guarda e o Mictório Público. 
 
Descemos mais uma escadaria, seguindo ao local que já foi o “Cais do Valongo”, e também posteriormente chamado, o “Cais da Imperatriz”. O “Cais do Valongo”, construído em 1811 para substituir o desembarque e comércio de africanos na atual Praça XV, região central da cidade. Em 1843, foi remodelado com requinte para receber a Princesa Teresa Cristina, noiva do futuro Imperador D. Pedro II, e passou a se chamar “Cais da Imperatriz”. Com as reformas da cidade no início do século XX, o cais foi aterrado em 1911. Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico, agora monumento preservado e aberto, para nossa alegria. Do cais seguimos em direção ao “Largo de São Francisco da Prainha”. É um local de especial importância para a cultura negra carioca e para os amantes do samba e do choro. Pode ser considerada como o núcleo simbólico da região chamada de Pequena África, que era repleta de casas coletivas ocupadas por negros escravos e forros. Nesse local foi inaugurado em 2009 o Restaurante Angu do Gomes o famoso "carioca/aportuguesado angu" do Rio de Janeiro, desde a década de 50, quando várias barraquinhas se espalhavam pelas praças da cidade e viraram um ícone da noite e da boemia.
 
 
Ali se localiza a famosa “Pedra do Sal”, onde se reuniam, no séc. XX grandes sambistas do passado, como Donga e Pixinguinha. A "Pedra do Sal" possui esse nome, porque era
descarregado na rocha por africanos escravizados no século XVII. Os degraus foram esculpidos para facilitar o trabalho de subir na pedra lisa. A partir da segunda metade do século XIX, estivadores se reuniam no local para cantar e dançar. Dali, os moradores saudavam os navios que chegavam da Bahia com familiares e amigos. A Pedra do Sal era, para migrantes, o que é hoje o cristo Redentor para os recém-chegados ao Rio: o primeiro abraço e o primeiro sentimento da cidade. Os moradores e seus migrantes eram predominantemente negros baianos retornados da Guerra do Paraguai  ou em busca de melhores condições de vida. Lá, se encontraram as célebres tia, pretas forras e suas "pensões", onde o batuque e o jongo se transformaram em partido alto. Os negros e suas tias participaram dos principais eventos da cidade como a Abolição, a Revolta da Armada, as greves, a Revolta da Chibata e outros. A Pedra do Salé um monumento religioso do povo carioca. Na virada do século era cheia de templos afro-brasileiros, e se faziam despachos e oferendas. Na Pedra do Sal, surgiram os primeiros ranchos carnavalescos, afoxés e rodas de samba. E em quem eu e minha irmã pensamos logo? Nosso pai, Waldemar, funcionário do porto e que provavelmente passou muitos plantões curtindo um samba naquele local. Hoje podemos curtir várias rodas de samba no local, tanto na Pedra do Sal, como no Largo da Prainha. Durante o período de carnaval desfila o “Bloco Escravos da Mauá”, criado em 1993.
De lá seguimos para a Igreja São Francisco da Prainha. O mar chegava quase até a orla do Morro da Conceição, com uma extensa, mas estreita, faixa de areia, onde os pescadores amarravam as suas embarcações, daí o nome de Prainha. A igreja começou a ser construída em 1696, mas apenas em 1738, acapela achava-se inteiramente pronta. Do lado de fora tem estilo barroco, os cantos são de pedra e seu interior é de estilo gótico. Estava chegando ao fim nosso passeio guiado, ainda nos restando uma passada na portaria do primeiro arranha-céu da América Latina, inaugurado em 1930, o “Edifício A Noite”, que abrigou o jornal "A Noite" e hoje é reconhecido por ser sede da Rádio Nacional, aquela da "Era do Rádio" . Dentro deste circuito ainda existem dois lugares que devem ser visitados, como o “Centro Cultural José Bonifácio” que foi o primeiro colégio público da América Latina, cujo palacete fica na Rua Pedro Ernesto nº 80, na Gamboa, é um centro de referência da cultura afro-brasileira. E na Rua Pedro Ernesto nº 32, o “Instituto Pretos Novos (IPN)”, o maior cemitério de escravos das Américas.
Deixo aqui um convite, não apenas para os turistas de fora da cidade do Rio de Janeiro e de outros países, mas aos moradores, que não conhecem essas maravilhas, que visitem esse pequeno paraíso com cara de interior e seus arredores com toda a história da cultura africana no Brasil. Aproveite os passeios guiados, como esse que fiz com minha irmã. E curta um pouco dessa parte da cidade do Rio de Janeiro,  que costumava ficar de fora dos roteiros turísticos. Quem sabe, como eu, ir brincar em um “Bloco de Sujo”, em pleno Morro da Conceição, no carnaval...
Inspirar é isso. Descobrir no seu mundo e no seu espaço a riqueza de uma paixão e a nostalgia de raízes...belíssimo exemplo de cultura e ânsia pelas pequenas coisas da vida...obrigado prima irmã...meus poucos anos no Rio (nasci no Rio, mas saí de lá em 1978) me deixou essa vontade louca de desbravar minha história....
 

Andrea Pires

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