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28 setembro, 2013

sábado, setembro 28, 2013

GRANADA ESPANHA ....Voltando para casa

Ao todo foram 4 vezes em Granada. Se é verdade que cada um tem seu local de paixão, o meu, definitivamente, é Andaluzia e mais precisamente, Granada. Não tenho uma explicação porque essa cidade exerce tanta influência sobre mim.  Granada é uma mistura viva e intensa de árabes, ciganos e judeus. Ainda não se sabe se Granada tem Alhambra ou Alhambra tem Granada...mas certo e fato é que quem a conhece, não esquece jamais. Se divide em 02 partes distintas: a partir da Plaza Nueva, encontramos o Bairro de Albaycin, Sacromonte e Alhambra imersas numa história da época dos mouros e católicos, onde árabes, judeus e ciganos se mesclaram para sobreviver, e, por conseguinte, surge daí o flamenco. Depois da Plaza Nueva (descendo a Gran Vía), a cidade toma forma de modernidade com o centro comercial e a Catedral, cuja realidade é mais próxima do que estamos acostumados, misturando o novo e o antigo da arquitetura.
Desta vez minha ideia foi uma imersão no mundo flamenco com uma programação de 3 horas diárias de aulas por 2 semanas na Escola Carmen Cuevas . A escola oferece cursos de espanhol, guitarra flamenca, história de flamenco e baile/técnica flamenco. A qualidade é comprovada pela frequência de alunos de toda parte do mundo, pois abraça o turista que quer viver um pouco de Andaluzia, atendendo aos vários tipos de necessidades. Além disso, oferece também alojamentos (aptos. ou casas) e o mais importante: pessoas de todas as idades estão aqui!
Além das aulas, fui buscar e experimentar coisas novas em Granada, onde tive a chance de desfrutá-la calmamente no calor de um verão intenso com temperatura próxima aos 44 graus. A cidade ferve em todos os sentidos nessa época: muitos jovens, estudantes em férias, turistas de passagem, pessoas alternativas e sem rumo, tudo isso e uma vontade imensa de ficar parada, observando e deixando o ar de Granada falar. Vi e conheci pessoas (muitos brasileiros) que estavam “de passagem por Granada”, arrependidos de não terem tido informações prévias sobre a riqueza cultural do local e extasiadas com tanta coisa que não poderia ser vista ou vivida, porque estavam de passagem...e gente...passagem em Granada não dá para ser feita numa tarde (vamos combinar né?) ...então, amigos, por favor, mesmo de passagem, reservem pelo menos 2 dias/3 noites para Granada. Garanto que será uma experiência única.
Vivendo Granada
Fiquei hospedada na Plaza Nueva, no hotel MaciáPlaza um ponto estratégico que divide a Granada rustica da moderna. Seguia diariamente para Albaycin (uns 3kms), passando por Alhambra TODOS OS DIAS e cada dia via uma Alhambra diferente. As noites foram para os shows de flamenco e tapear nos bares, sem pressa. Essa é uma coisa importante: não tenha pressa e todos seus sentidos estarão extremamente aguçados. Deixe Granada entrar em você.  Numa noite dessas, fui ao Hamman Andaluside Granada. Fica numa rua no início da Carrera del Darro. Foi providencial fazê-lo à noite depois de 1 dia intenso de aulas.
Uma pausa ao estilo árabe, permitindo-me banhos de temperaturas distintas, massagens e o típico chá de menta. Apesar de ser misto (homens e mulheres juntos), todos estão em trajes de banhos e não há “conversas” para não atrapalhar o momento de descanso e meditação. O local, com arquitetura tipicamente árabe, a musica ambiente que envolve o silencio e a iluminação (sempre penumbra), tudo isso nos deixa anônimos, quietos e meditativos. Fazer um hamman é uma experiência de pura luxuria e muito contato consigo mesmo. As vozes internas ficam nítidas e a mente clara. Um tempo de reflexão e relaxamento. Além disso, estar em Granada é permitir-se ao desfrute, deixando-se esquecer o presente e viajar num tempo de pequenos prazeres que os árabes já tinham há milhares de anos atrás.... Ah! Isso não tem preço.
 

Ali, bem pertinho da Plaza Nueva, tem a concentração de restaurantes e teterias (casas de chá) árabes e o Mercado Árabe - La Alcaicería (onde foi uma antiga medina muçulmana). O local fica entre ruas estreitas cobertas por “tendas” árabes onde pode-se comprar um típico artesanato e ainda parar para um chá. Durante as noites de verão o mercado ferve no vai-e-vem de turistas loucos com o artesanato local.
Aos pés de Alhambra 
Durante o dia, nada melhor que ficar aos pés de Alhambra, contemplando a suntuosidade e a delicadeza desse palácio, cujo reino foi marcado pela tolerância religiosa de 1200 até 1492, quando a cidade foi conquistada pelos reis católicos. Contemplá-la, ouvindo o barulho do rio e o vento nas árvores, faz de Alhambra uma rainha. Programa especial é jantar num dos restaurantes no Paseo de Los Tristes, sob a vista do Palácio e imaginando histórias. Descobri que existe a visita dentro dos palácios à noite, com uma perspectiva bem diferente dos passeios durante o dia. É permitido visitar os Palácios e admirar a arquitetura contornada pela luz da noite e a penumbra dos jardins. E nessa noite era lua cheia e a cada ambiente visitado, imaginei e invejei Washington Irving escrevendo seus contos....e os barulhos? A mistura da água das fontes, do vento leve de verão, faz com que Alhambra seja uma orquestra ouvida, sentida e desejada.
 


 
 Albaycin 
 Albaycin é um pedaço histórico dos mais importantes de Granada que mostra a presença árabe na arquitetura de suas ruas e casas com seus jardins que exalam jasmim. A escola fica no coração de Albaycin. Subir suas ladeiras no silencio do calor escaldante e mortal, passando pelas casas que tão brancas refletem a luz que num momento confundem os olhos, explica porque no verão todos ficam trancados em suas casas, no frescor de seus jardins. De repente, entre uma ladeira e outra, aparecem praças como oásis com seus pequenos restaurantes e um bom local para descanso. E a vontade é nunca mais sair de lá, até o calor acabar. Passagem obrigatória para a melhor foto da vista de Alhambra e terminar a visita ao bairro, é chegar ao Mirador San Nicholas.
 
 

As cuevas de Sacromonte 
Sacromonte merece ser visitada de manhã cedo. A subida é forte, mas a vista e a caminhada são revigorantes. Está de frente com Alhambra e as “cuevas” abrigaram muçulmanos, judeus e ciganos, na época da perseguição católica. O Museu de Sacromonte mantém preservado um espaço típico dos costumes da comunidade cigana. À noite em Sacromonte, pode ter flamenco ou cine ao ar livre, enfim...subir Sacromonte, é passar pelas cuevas que foram Zambras e que hoje oferecem shows para Turistas com o que Granada tem de mais representativo de flamenco.  É preciso seguir para a Abadia de Sacromonte construída no séc. XVII, sob o lugar que foram encontradas relíquias do apóstolo Santiago Maior e os famosos livros plúmbeos (polêmicos até hoje), que são placas em escrita árabe que relatavam o martírio de São Cecílio e seus companheiros numa fusão de relatos cristãos e muçulmanos. 

 
 
As noites de Granada 

Nada melhor do que sair de bar em bar. Na própria Plaza Nueva, as opções são imensas, mas é no bairro de Realejo (Campo Príncipe) que as tabernas e bares se concentram numa variedade e preços justos. Em Granada, é muito comum ter a “tapa” acompanhada com a bebida, ou seja, paga bebida e come de graça!. Então, a desculpa para beber é mais do que saudável: com certeza haverá comida. Ninguém fica de estômago vazio. Claro que quando estamos muito tempo num lugar, elegemos aquele ponto frequente, que no caso foi a "La Gran Taberna"...porque essa? Bem, em frente ao hotel e era o único bar aberto com comida depois dos shows de flamenco....parada obrigatória 
 
Flamenco em Granada – Com minha licença poética.... 
 Falar do estilo de flamenco de Granada para mim é mais que importante. Apesar do flamenco de Granada não ter tanta visibilidade fora de lá, foi aqui que eu vi o estilo que mais me encantou e me identifiquei: eu chamo do estilo terra, que dança meio que agarrado ao chão.... Tudo é muito rustico, provavelmente não tem tanta técnica e sofisticação como em outras cidades, porque os gestos são fortes e toscos, o floreio lembra as mulheres do campo, os movimentos do corpo são brutos, o sapateado é “terra”, as roupas não se combinam em nada mesmo, a maquiagem exagerada hipnotiza: olhos pretos rasgados e lábios vermelhos. Os homens são bem “ciganos” e muito sensuais, com os olhos daqueles bem “cafajestes”, sabe? Pois então. Esse flamenco veio das Zambras.....e só em Granada tem Zambras...que quer dizer ruído, baile acompanhado de cante com instrumentos. Era uma expressão usada quando se cantava e bailava nas festas de casamento, religiosas, etc. As Zambras começaram em Sacromonte com os mouros e ciganos e somente a partir de 1820 com os viajantes franceses da época romântica, Washington Irving e outros intelectuais da época, que Granada e suas Zambras ficaram conhecidas por toda Europa. Eram artistas, escritores, intelectuais que cruzavam a Europa para conhecer as Zambras de Granada. Das várias surgidas no séc. XVI, somente a La Rocío e a Canastera ainda existem e as famílias daquela época (ciganas) que mais disseminaram as Zambras para o mundo foram os Heredias, Amaya, Maya, Cortés, Fernandez, Fajardo, Bustamente e Carmona. É gratificante presenciar as novas gerações perpetuando o que seus antepassados fundaram. Alguns ainda estão vinculados às cuevas de Sacromonte. Muitos são dessas famílias ciganas, outros adotaram essa cultura. O que importa mesmo é que a cultura está preservada com ares mais joviais e nessas 2 semanas de imersão total, conheci alguns bailaores (as) que fazem isso com muita paixão e simplicidade, mostrando o flamenco de Granada com toda sua força e razão de ser:
PILAR FAJARDO, minha maestra mais que especial, pois foi a 1ª. quando estive em Granada para aulas de flamenco em 2008 e sigo inspirada com seu estilo. Pilar tem uma simpatia típica e o flamenco mais puro que alguém pode presenciar. Tem um aire próprio. Ela é de Algeciras (Cádiz) e foi aprendiz de Antonio el Pipa,  Maria del Mar Moreno, Angelita Gómez, Mercedez Ruiz, Yolanda Heredia, Andrés Peña, Belén Maya, Rafaela Carrasco e Mario Maya.  Além de ser uma maestra da Carmen Cuevas, Pilar pode ser vista bailando em locais de flamenco à noite. Recomendo Le Chien Andalou onde Pilar baila como se estivesse em casa. Um local alternativo e tão pequeno que dá para sentir sua respiração a cada momento. Pilar quando baila exala sensualidade e leveza, conectada com a terra. Não tem uma pessoa que não fique hipnotizado e envolvido pela forma de bailar dessa cigana. E a cada arremate ou uma sequencia de sapateado, é como se voltasse no tempo e víssemos ali a mais pura expressão de um flamenco cigano.
 
ESTEFANIA MARTINEZ PUYOL foi minha maestra agora. Tem na sua formação o flamenco e o clássico espanhol, o que torna seu baile peculiar: a mistura dessas influências enriqueceram de tal forma seu estilo que não dá para separar a bailarina da bailaora.  Pessoalmente, uma menina doce e aparentemente frágil. No palco, uma mulher cujos olhos dançam e seus braços se movem de tal forma que parecem voar e num suspiro, vem uma força que não se sabe de onde. Estefania tem uma técnica perfeita e se transforma assim que pisa no tablado de Venta los Gallo.
 
MARI CARMEN GUERRERO, a grande maestra é de Albayzín. Que sorte ter tido aulas com ela. Nasceu no meio dos grandes do flamenco. Cresceu nos tablados, foi aluna de Manolete, Mariquilla, La Presy, Adela Campallo, Pastora Galván, Manuel Liñan...essa é grande mesmo e sua paixão vê-se refletida na sua própria filha: Patricia Guerrero. Mari Carmen tem uma didática muito típica e pessoal, pois o flamenco flui em seu corpo com uma obviedade impressionante. Ao ensinar, não tem quem não acredite que não possa dançar. Uma maestra especial que (infelizmente) não encontramos nas noites de Granada bailando, mas encontramos na escola como uma das mais importantes maestras. Maestra, te reverencio!
 
PATRICIA GUERRERO, filha de Mari Carmen Guerrero, nasceu em Granada. Uma revelação sem precedentes, uma menina que está deixando um legado importantíssimo para o flamenco. Aprendeu com sua mãe, claro, mas também com  La Presy, Mario Maya, Belén Maya, Rafaela Carrasco e Juan Andrés Maya. Patricia leva para todo o mundo um flamenco forte, técnico e de movimentos perfeitos. Apesar da aparente fragilidade de menina, quando baila, cresce e se transforma numa bailaora, onde todas as histórias parecem contadas em seu baile. Patricia carrega a história e abre um caminho para o novo.
 
ADRIAN SANCHEZ é de Granada e teve sua formação na escola de  Mariquilla. Fundou sua própria Cia. Em 1995 – Taracea e atualmente tem uma escola em Granada. Adrian é um atleta flamenco que acompanhou Patricia Guerrero na Casa del Arte Flamenco, deixando uma marca única.  Quando baila sua uma técnica limpa e seu sapateado de luxo, a sensação é que ele está andando sobre água, de tão leve, elegante e sedutor.  
 
IVAN VARGAS HEREDIA, um diamante bruto e intenso. Vi esse rapaz em “Los Veranos de Corral” com seu espetáculo “Yo Mismo”. Um menino cigano típico de cueva. Nascido em Sacromonte, na cueva “La Rocío” onde inicio o flamenco no seio de sua família “Los Maya”. Esse rapaz é sobrinho de Juan Andres Maya, representando uma dinastia de flamenco das mais importante de Granada : Manolete, Juan Andrés Maya, Mario Maya e Juan Maya “Marote”. O espetáculo “Yo Mismo” não poderia ser melhor descrito : ele dança “ele”, flamenco de cueva. Simples e tão preso nas suas raízes. Puro, romântico, sedutor e forte... Olé Ivan!
ALBERTO SELLES, jovem bailaor que já tem um espaço garantido no mundo flamenco. Foi discípulo de Angelita Gómez e Patricia Ibáñez em Jerez, se formou e se desenvolveu com Juan Ogalla, La Moneta, Farruquito, Javier Barón, Úrsula López, Rafael Campallo, Andrés Peña e Andrés Marín. Seu show em “Los Veranos de Corral” teve a preciosa participação de Javier Barón.Foi indescritível ver a criatura e o criador, bailando juntos. O tradicional e o moderno se complementando. Ambos com a mesma paixão e bailando um para o outro, sem se importarem com mais nada em volta deles. Os movimentos de Alberto Selles são perfeitos e a sua sintonia com Javier o coloca num patamar dos grandes mesmo, pois a cumplicidade de ambos deixa a plateia de boca aberta. Alberto é sofisticado e já é uma referência no universo flamenco.
FUENSANTA LA MONETA, de Granada, também começou na escola de Mariquilla e seguiu tendo aulas com Antonio Vallejo, Juan Andrés Maya y Manolete. Durante muito tempo se estacou no baile da cueva de Sacromonte «La Rocío». Conheci seu baile no show do Generalife com o Espetáculo “El Duende”, local de grande evento e de outra perspectiva, bem diferente das cuevas/zambras. Percebe-se que por mais trabalhada que seja seu baile, ela não conseguiu (graças a Deus) deixar o estilo de Granada, e mesmo vendo-a bailar bem de longe, sua rusticidade e a raiz de uma Cueva gritam e ela torna-se maior que Generalife.


E foi assim que pela 4ª. vez vi Granada...e pensando muito sobre a paixão de viajar e pelo flamenco, me deparei com um único medo que me assombra atualmente : medo de não me deslumbrar com as descobertas, encontros e reencontros. Não existe nada tão frustrante e deprimente quanto esse medo de não me surpreender com as coisas que a vida oferece. Nem sempre temos a vida que sonhamos, mas seguramente podemos fazê-la com emoção e vivê-la intensamente e por isso, quando passava sob os pés de Alhambra diariamente, entendia a grandiosidade do homem e a tolerância de Deus.  

01 julho, 2012

domingo, julho 01, 2012

ANDALUZIA – A Granada que Giovana Teles conheceu….

 Chegar a Granada no fim da tarde é um grande presente. O melhor é ir direto para a Carrera del Darro e observar a Alhambra: grandiosa, encantadora que vai se “transformando” com o cair do sol e ganha outros ares e cores à noite. É deslumbrante acompanhar esse rito de passagem das calçadas dos vários bares dessa área da cidade, que dá acesso ao Sacromonte e ao Albaicín. Há passeios guiados à noite por esses dois “bairros” que se complementam. Uma parada obrigatória é o Mirador de San Nicolás, de onde se vê a Sierra Nevada, e todo o Generalifee a Alhambra. O encantamento continua subindo o Albaicin, em alguma das cuevas com espetáculos de flamenco. Sim, são shows montados para os turistas, em várias salas, vários horários. Mas mesmo assim vale a pena, pelo lugar, pela atmosfera mágica da noite de Granada. Fui à zambra gitana da cueva Los Tarantos.
Dia seguinte separado para a visita à Alhambra, uma joia da arquitetura árabe, erguida pelos sultões Nazaritas já no último período da dominação muçulmana. A cada palácio, fonte, jardim – cada um com suas histórias e mistérios - aumenta a certeza de que se vai voltar à cidade um dia. Para aliviar o cansaço e renovar as energias, um banho árabe, em seguida. A rede Hammans de Al Andalus, tem um banho árabe junto da Carrera del Darro. São piscinas quente, morna e fria e você pode optar por massagens também. Perfeito!

Depois, na Plaza Nueva, montaditos de jamón Pata Negra com um vinho de Rioja. Vem a noite outra vez e mais flamenco. Mas dessa vez, em casas que os próprios granadinos frequentam: como o Le Chien Andalou. É preciso comprar os ingressos cedo porque o lugar é pequeno e enche muito rápido. Pelo Chien passam muitos artistas da cidade e os que estão a passeio ou dando cursos. Encontramos nesse bar flamenco, por acaso, ninguém menos que o bailaor Joaquin Grilo.


De dia, outra visita inesquecível é ao Museu da mulher Cigana e às cuevas que reproduzem como os ciganos moravam nessas casas escavadas na rocha. Essas casas, morada dos mais pobres, ficam aquecidas no frio e amenizam o calor no verão. O museu mostra também as principais atividades dos ciganos – a fabricação de cestarias, de utensílios de cobre e de ferro. Pertinho disso, também no Sacromonte, outro museu: a casa cueva de Curro del Albaicin, um cantaor, poeta, muito ligado à arte flamenca em Granada. O salão está cheio de fotografias de artistas das mais nobre dinastias dessa arte.

Como eu e minha amiga Magda Patrícia de Castro identificamos vários deles, acho que passamos no teste, e Curro ainda improvisou uma zambra exclusiva pra gente – flamenco puro en la sangre!  Também é assim nas apresentações em outra cueva em que professores das escolas de flamenco da cidade costumam se apresentar - a Venta El Gallo, que tem na parede principal a foto do escritor, poeta, músico que, para mim, se confunde com a cidade: Federico García Lorca.

Para ficar mais perto da obra e da história de Lorca é preciso seguir para o outro lado da cidade. No parque Federico Garcia Lorca está a Huerta de San Vicente, a casa de campo onde a família passava o verão e que serviu de abrigo a Lorca antes de ser assassinado pela ditadura de Franco.

Na casa museu, só se entra com guia e em horários determinados. Ali estão textos manuscritos, desenhos, objetos pessoais, o quarto ... e o piano em que Lorca tocou e gravou várias canções populares com La Argentinita. Entrar nesse universo, conhecer a letra, as cores escolhidas pelo próprio Lorca para suas obras é um privilégio sem tamanho. É como se pudéssemos voltar às décadas de 20 e 30 ... a casa simples, rodeada de verde,  onde um dos maiores poetas de todos os tempos buscava inspiração ... entre os manuscritos, cartas aos amigos geniais como ele: Salvador Dali, Luís Buñuel, Manuel de Falla. A vontade é de ficar horas observando e absorvendo cada detalhe. A guia nos dá a chance de voltar a um cômodo antes de sairmos. Voltei para a sala de piano, lembrei da Nana de Sevilla gravada pelos dois. Saí e chorei por saber que, de alguma forma, tinha vivido ali momentos de muitas histórias que pareciam distantes e naquele instante eram tão reais.  Sentimentos iguaizinhos aos da Canción del dia que se va ...
“Que trabajo me cuesta
Dejarte marchar, dia!
Te vas lleno de mi,
Vuelves sin conocerme
Que trabajo me cuesta
Dejar sobre tu pecho
Posibles realidades
De imposibles minutos.”
(Federico Garcia Lorca)

Giovana teles é jornalista, completamente apaixonada pelo flamenco e tem certeza que Andaluzia é a sua casa espiritual
domingo, julho 01, 2012

ANDALUZIA – A Granada que conheci....

(Agustin Lara)
Granada, tierra soñada por mi, mi cantar se vuelve gitano cuando es para ti...
mi cantar hecho de fantasia, mi cantar flor de melancolia, que you te vengo a dar... Granada, tierra ensangrentada
en tardes de toros, Mujer que conserva el embrujo de los ojos moros de sueño rebelde y gitana cubierta de flores y beso tu boca de grana jugosa manzana que  me habla de amores
Granada Manola cantada en coplas preciosas no tengo otra cosa que darte
que un ramo de rosas de rosas de suave fragancia que le dieran marco a la Virgen Morena...Granada, tu tierra está llena de lindas mujeres de sangre y de sol

Sim...Plácido Domingo embala essa viagem com muita certeza do que canta....com intensidade e fervor, porque Granada é assim...
Granada tem 02 coisas muito fortes na minha memória: as “figueiras” seculares que contornam Alhambra e as “romãzeiras”, que simbolizam a cidade (Granada traduzido para português é Romã). Tanto o “Figo” quanto a “Romã” são do oriente e, segundo lendas e histórias populares, a romã está associada à paixões e fecundidade, dedicada à deusa Afrodite. Os judeus a veem como símbolo religioso muito utilizado no ritual de passagem de ano e os árabes veneram seus poderes medicinais. O Figo, é sagrado para os judeus e para os budistas e muito consumido no mediterrâneo como fruto seco. Granada tem cheiro de romã e a cor de figo...vermelho e verde misturados à cor branca das casas que predomina nas paisagem. Granada é única aos olhos. Poética, romântica, jovem,  antiga, silenciosa e colorida. Como uma visão de um Oásis no meio do deserto...é assim que a chamo...meu Oásis de Andaluzia...
A cidade tem essa mescla viva de árabes, ciganos e judeus, encravada na sua geografia e história através das cuevas de Sacromonte, do mercado árabe, das teterias (casas de chás), da vida boêmia de seus bares, dos poemas de Lorca e da forma “Andaluza” de viver...a velocidade de Granada nos impõe seu freio...não tenha pressa! Suba cada ladeira bem devagar, descubra-a e se descubra, pois o silêncio de suas ladeiras nos proporciona uma intimidade individual preciosa.

A História nos diz que....
A cidade foi um reduto de árabes, judeus e ciganos que conviveram pacificamente até conquista dos reis católicos, 1492. (ultima cidade conquistada).  O ultimo rei muçulmano “Boadbil” ficou famoso pela forma que se rendeu, assegurando que seus súditos fossem tratados sem violência. Conta a lenda que em sua partida para o exílio, em prantos, sua mãe lhe disse “Llora como mujer lo que no supiste defender como hombre”. Triste e derrotado, seguiu para Fez (Marrocos) onde morreu em batalha contra os povos do deserto em 1528. 
Conta-se que durante a perseguição Católica, os ciganos queriam se converter porém, a Igreja os rejeitavam veementemente. Inclusive, a rejeição ao povo era tamanha que a Igreja/Estado buscou formas de inibir a sua reprodução e disseminação, separando homens, mulheres e crianças ciganas, encaminhando essas ultimas para famílias católicas europeias da região. O propósito era acabar com a “raça” cigana definitivamente. Por outro lado, os muçulmanos que não queriam se converter, eram expulsos ou mortos. Pela similaridade física, muitos se misturaram aos ciganos (rejeitados pela igreja e foragidos) e assim podiam viver excluídos e disfarçados nas regiões montanhosas. Já os muçulmanos convertidos (ou aqueles que se diziam convertidos), eram chamados de mouros, tendo que assimilar a religião Católica e seus costumes, abandonando sua cultura.
Granada sobreviveu assim : igrejas construídas nos bairros judeus e árabes se misturando a arquitetura moura, vários andaluzes, árabes e judeus convertidos e muitos excluídos na região montanhosa. Cenário mais que favorável para o aparecimento do flamenco na cidade. Por ter sido um reduto de ciganos e árabes, o flamenco aqui nasceu nas “fiestas das cuevas” quando se reuniam sorrateiramente à noite para lembrarem, cantarem, dançarem e lamentarem sua condição de foragidos e excluídos. 
Para sentir Granada, não deixe de ....
§ Subir a “calle” que cotorna Alhambra e o Rio Darro e descobrir o Bairro de Albaicín, até o mirante San Nicholas
§Dedicar um dia inteiro para Alhambra e toda sua extensão.
§Descobrir, sem pressa, Sacromonte, tanto de dia quanto à noite

Seguindo a “Carrera Del Darro”, contornando Alhambra e descobrindo o Bairro ALBAICÍN

Albaicín é a parte bem antiga de Granada, onde se vive em casas com pátios e jardins e de forte influencia árabe. Para conhecê-lo, sugiro caminhar a pé, apesar de ter que subir ladeiras...essa é a melhor forma de observar os costumes e a arquitetura. A pintura branca das casas com seus vasos de flores de gerânios que enfeitam as varandas e paredes externas, dão um tom visual bem típico de uma Espanha antiga. Suba ate o mirante de San Nicholas e a Igreja. Descanse. Sem pressa, fotografe tudo...ouça algum granadino tocar uma guitarra flamenca e admire a imponência de Alhambra.
Em Albaicin tem a escola Carmen Cuevas, onde pela 1ª. vez fiz aula de Flamenco e História. Uma comunidade de pessoas de várias nacionalidades e idades que compartilham dias intensos nas aulas de Espanhol, de Flamenco e História do Flamenco. Nesse caso, sugiro hospedagem no alojamento da escola (que oferece excelentes opções de apartamentos e casas) e assim poder desfrutar o bairro integralmente, pois, não há hotel e pousada por aqui.
Continuando a caminhada pelo bairro, no silêncio das ladeiras e ruelas, abrem-se praças rodeadas de cafés e restaurantes que no verão estão sempre lotados de turistas com aquele burburinho típico. E sempre aparece alguém com um violão flamenco para alegrar ainda mais...e antes de acabar o dia....ao anoitecer...volte ao Mirante San Nicholas...e descubra o céu de Granada.
À Noite, não deixe de conhecer, na Carrera Del Darro o “Le Chien Andalou, local típico de shows flamencos e reduto de artistas famosos da região de Andaluzia.

Viajando nas histórias de ALHAMBRA...
A melhor forma de conhecer Alhambra é passar o dia inteiro sem nenhum outro compromisso. Se possível, tenha em mãos “Cuentos de Alhambra” de Washington Irving e entre uma caminhada e uma descansada, leia e viaje nas suas histórias e lendas que ele escreveu quando morou no Palácio.
 Granada foi governada por muito tempo pela Dinastia Nasrida que fez de Alhambra sua fortaleza/cidade (Medina) com suas muralhas únicas e imponentes que a separavam da cidade. Ali vivia sua população dedicada à Medina e todos tinham acesso ao palácio real, mesquitas, escolas, etc...Já no Império Romano, foi a corte do reino de Granada, e que também servia de refugio para artistas e intelectuais na época. A arquitetura é a expressão da arte islâmica com inscrições árabes e arabescos.
Programe essa visita com antecedência e recomendo comprar os ingressos com antecedência para não enfrentar fila no dia da visita. Geralmente o passeio dura uma média de 4 horas. Sapatos e roupas muito confortáveis são essenciais. Aproveite muito os jardins de Alhambra para um picnic, um descanso e para admirar com a calma necessária toda a extensão da Medina.
Ao sair de Alhambra, contorne a Carrera Del Darro sentido Bairro de Albaicín e presentei-se com um Hammam, banho árabe típico e renovador. Uma experiência inesquecível.
À noite, descubra a praça de restaurantes e bares que tem a vista para encosta de “Alhambra” sua muralha iluminada e se permita esquecer a hora..deixe a madrugada chegar....

SACROMONTE e suas Cuevas…um museu a céu aberto....
Sacromonte está de frente com Alhambra....e suas “cuevas” são típicas moradias de ciganos que viveram por muito tempo com seus costumes preservados. Também foi aqui que os muçulmanos e judeus se refugiaram e receberam abrigo pelo povo cigano e se falava o dialeto “El Calé”, típico da Índia (de onde vieram ciganos). Um lugar preservado que retrata o modelo de vida dos ciganos e povos que viveram ali.
Subir Sacromonte requer muita paciência. O caminho é íngreme e cansativo, mas de uma beleza única. Observe a quantidade de alecrim que cresce aleatoriamente. O alecrim (chamado de Romero em Espanhol) é conhecido desde a antiguidade como uma planta para banho, unção e defumação. Para os ciganos, uma planta de limpeza e proteção. Todo o caminho para Sacromonte é contornado por Alecrim e seu cheiro  exala um perfume restaurador.
Logo no início da subida, tem muitas “cuevas” que são restaurantes e oferecem  shows de flamenco à noite. Vale uma parada para buscar informações de horários e o telefone para reserva.  Experiência única é ver um show de flamenco, estilo “Zambra” festa de origem moura e muito comum entre os ciganos. Recomendo “Venta el Gallo”,  que apresenta  um  show com artistas locais e tipicamente granadinos, um flamenco mais forte, mais rústico, mais doloroso e mais “cigano”.
Seguindo e subindo de dia, passando pelas cuevas, a paisagem começa a se distanciar e quase que se transforma numa pintura. Aos poucos o museu começa a aparecer. Tudo muito preservado. Logo na entrada, você recebe uma orientação sobre a organização do local. Desfrute cada cueva e suas histórias.
Depois de conhecer Sacromonte, certamente, você entenderá porque Granada é um Oásis, uma visão para puro deleite e prazer e porque foi cantada com tanto fervor.

Andrea Pires

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