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25 outubro, 2012

quinta-feira, outubro 25, 2012

CHILE – Lagos Andinos e Santiago

Essa viagem foi um grande achado! Eu estava sem muitos recursos financeiros e me deparei com esse roteiro muito "em conta": BRASIL/BUENOS AIRES/BARILOCHE/LAGOS ANDINOS/SANTIAGO. Um roteiro pouco comercial, em que fui surpreendida durante 15 dias. Nunca imaginei encontrar tanta aventura, beleza e história aqui pertinho. Fui em pacote para os Lagos Andinos porque estava sozinha e fiz por conta própria a parte de Santiago. Mas tudo programado e reservado daqui do Brasil.
E como é diferente viajar sozinha pela Europa e pela América Latina! Na Europa é comum pessoas sozinhas em qualquer ambiente e em qualquer idade. Aqui tive algumas “olhadas questionadoras” das pessoas por onde ia (restaurante, vinícolas, etc), bem como no próprio grupo de latinos e brasileiros que conheci no pacote dos Lagos Andinos. Certamente que fiz boas e inesquecíveis amizades, mas eu era o único “ser” fazendo esse roteiro sozinho. E sempre tinha que responder a mesma pergunta: “Porque você está viajando sozinha?”.Isso não comprometeu em nada a viagem, pois além de desfrutar de um cenário encantador, que deve ser feito em qualquer situação (sozinho, casal, amigos, família), é uma escolha única para quem está de bem com a vida. E lá fui eu....
A chegada é por Buenos Aires para um curto espaço de tempo (se preferir pode esticar os dias em Buenos Aires). Para quem vai pela 1ª. vez, sugiro um city tour básico para conhecer a Casa Rosada, Catedral, Plaza de Mayo, Obelisco, Avenida Corrientes e 9 de Julho, bairros da Recoleta, La Boca e Caminito. Um pequeno espaço de tempo para a Rua Florida e as Galerias Pacífico. Um belo jantar com noite de tango e um maravilhoso café da tarde, no Café Tortoni (claro!). Injustiça resumir Buenos Aires assim, mas dedicarei outro post à altura da cidade. Prometo!!! 
Nem tudo é perfeito né? Pois então, ao chegar em Bariloche, descobri que o local era para casais em lua de mel e família em férias escolares (imaginem a minha situação!!!). O que me salvou mesmo foi saber que esse era o ponto de partida para os Lagos Andinos e aproveitar a neve pela 1ª. vez . Convenci-me que estava tudo normal, com ares de “Diva”. Aproveitei para comer de tudo e caminhar na cidade...afinal era a 1ª. vez que eu via neve! A sensação em conhecer a neve foi incendiária...à primeira vista senti o branco e o frio me queimando as vistas e o corpo. Aquela visão de que parece fofinho como algodão???? M-E-N-T-I-R-A . Totalmente branca e dura. Confortável de ver e desconfortável de sentir. Mas, na emoção, chorei, pois nunca pensei na vida em ver neve (clichê né?).
 
LAGOS ANDINOS....onde a viagem começou de verdade!
Então seguimos para os Lagos Andinos...cujo ponto de embarque era Bariloche, em Catamarã, pelo Lago Nahuel Huapi. Destino: Peulla, cruzando a Cordilheira dos Andes. A visão muda já na fronteira Argentina e Chile. Na Zona sul da Cordilheira do Andes conheci o “El Tronador”, um vulcão ainda ativo, que teve a ultima erupção há mais de 10.000 anos. Dizem que é baixíssima a probabilidade de entrar em atividade. 

A visão é assustadora e belíssima. Um misto de medo e prazer. Seguindo o percurso de Catamarã, vi uma natureza muito diferente e forte. Senti nos olhos o verde esmeralda das águas, o branco da neve e o azul quase celeste do céu, mistura exuberante de cores e sentimentos nunca dantes presenciados, mas de uma harmonia impressionante. Paramos em Peulla para um pernoite no Hotel Peulla, com estilo “ecoturismo”, e estrutura e serviços “impecáveis”. No dia seguinte, seguimos a rota cuja vedete desse trecho é Vulcão Osorno, considerado ativo e muito conhecido pela semelhança ao Monte Fuji (Japão). A cada instante, mais e mais impressionada com a rusticidade de Deus e a perfeição de sua obra. O Osorno tem uma neve constante em seu topo e a qualquer momento pode entrar em erupção, sendo a ultima registrada em 1869. Chegamos a Puerto Varas, uma cidade charmosa com arquitetura alemã, bastante turística e com restaurantes maravilhosos que “encerraram” maravilhosamente essa parte exótica e inusitada.









E fiquei pensando como traduzir e materializar essa beleza...tão sofisticada e simples de ser vista e difícil de ser sentida .... o verde esmeralda na água corrente reflete com uma intensidade que os olhos não acompanham. Não dá para sentir quente ou frio...é indefinido...o azul celeste do céu, bem poderia ser o azul do mar...no horizonte..quase impossível diferenciar....e o branco da neve, parece um abraço de Deus em tudo isso, um verdadeiro paraíso. Ah! Claro... El Tronador e Osorno...protegem e mantém o equilíbrio porque muitos acreditam que é onde o demônio descansa....deixo-os assim..por mais 10.000 anos...intocáveis....


O Chile e sua diversidade étnica...
Não sabia absolutamente nada do Chile, exceto sobra a fama dos vinhos. Quando cheguei à Santiago observei um povo “misturado”, com predominância do tipo “indígena”. Vi uma educação fantástica nas pessoas. Conheci um pouco de suas dores quando falam sobre o Golpe. Enfim... comecei a entender o Chile e sua história...forte e sangrenta....linda e cheia de riquezas....
Quando os espanhóis chegaram (sec. XV), encontraram um local povoado pelos Incase Mapuches. Mesmo confrontados pela maioria indígena, os espanhóis tiveram apoio de algumas facções das tribos, o que levou à Conquista Espanhola e escravização indígena para o trabalho de exploração de ouro e serviços domésticos. O ouro era o motivo maior de exploração do local, até se esgotar, quando então a economia ficou concentrada na mão de obra doméstica dos índios. Foi um processo natural o surgimento de uma camada mestiça que ascendeu às classes dominantes, formadas por filhos de homens espanhóis com mulheres indígenas. Com o tempo, esses mestiços queriam “branquizar” essas classes dominantes (que eles agora pertenciam) e no século XIX, o Chile passou a incentivar a vinda de imigrantes europeus com o objetivo de mesclar a população mais rica e branquizá-la. Então, formou-se uma elite “branca” de imigrantes, não necessariamente espanhola. E o povo com predominância indígena.
Em 1818 o Chile alcançou a independência. O que mais me marcou foi ver nas pessoas a memória dos 17 anos de ditadura militar (1973-1990), considerada uma das mais sangrentas do século XX na América Latina (o presidente eleito em 1970, Allende sofreu um golpe de estado pelo general Augusto Pinochet ). A história está impregnada nesse povo e a memória está viva. E aqui faço uma referência especial ao povo que vi no Chile : do motorista de taxi ao garçom do restaurante, todos sabiam falar sobre economia, política e história com uma coerência e patriotismo impressionantes. Povo culto, inteligente e sofrido que me ensinou como recomeçar e reconstruir, sem esquecer de seu passado. E estou falando de pessoas jovens! Estou me referindo à composição étnica da base da pirâmide, formada de índios. Quero afirmar que a educação no Chile fez e faz a diferença.
Alguns dias em Santiago.... 
Estive por conta própria, fazendo minha programação. Observei que os principais pontos turísticos estão bem próximos do Centro. Por isso fiquei hospedada no centro, no Hotel Majestic, porque assim eu poderia me locomover com mais facilidade (estando sozinha). Esse hotel é muito especial, pois, dentro dele tem um excelente restaurante de cozinha indiana. Fiquei cliente...jantei umas 3 noites lá.
Facilmente chega-se ao Palácio de La Moneda (sede do governo do Chile e do poder executivo) e pude ver o pátio. Bem perto dali fica a Plaza de Armas e tive a sorte de ver troca da Guarda. Caminhando encontrei o Mercado Central e fiquei cliente (fui almoçar lá uns 3 dias da estadia em Santiago). Uma infinidade de restaurantes com comida típica e muitos pescados. Aproveitei um dia bem “largo” para visitar calmamente o Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, que me pareceu ser bem completo sobre a cultura pré-colombiana. Tenho fascinação por essa cultura. Tirei um dia para visitar a vinícola Concha y Toro, muito conhecida no Brasil. Fundada em 1883, que eu além de vinhos extremamente sofisticados, tem um dos vinhos mais conhecidos aqui no Brasil, que é o Casillero del Diablo. Reservei outro dia para a vinícola Cousino Macul, que ainda hoje é administrada pela família fundadora (desde 1856). Por estar bem próxima da cidade, corre o risco de ser descontinuada por causa da poluição da cidade.
Subi o Cerro San Cristobal, um parque urbano de onde se tem a vista completa e cinzenta de Santiago. As compras de “regalos” foram um capítulo à parte. Em frente ao Cerro de Santa Lucía tem uma Feira de Artesanato maravilhosa e completa. Preços ótimos. O que mais se procura são os objetos e joias de lápis lázuli  (pedra azul encontrada no Chile e Afeganistão). Também visitei do Pueblito Los Dominicos que tem um artesanato bem variado e nesse local os artesãos se organizam como um ambiente de “povo do campo”, bem típico.
 
A antiga residência de Pablo Neruda, que hoje é um museu, fica em Isla Negra e é onde ele está enterrado. Conhecido e admirado mundialmente pelas obras, ainda tem sua memória muita viva nessa casa. Não sou uma conhecedora do poeta e escritor com a sensibilidade dos intelectuais, mas as horas que passei em sua casa, percebi que era um homem intenso, apaixonado, inconstante, incompreendido, insaciável, cheio de vida e de uma tristeza profunda (tudo ao mesmo tempo). Fui pesquisar mais sobre ele e li que Isabel Allende, em seu livro Paula, fala que Neruda teria morrido de "tristeza" ao ver dissolvido o governo de Allende. Já a versão do ditador Pinochet é a de que ele teria morrido devido a um câncer de próstata. Bom....isso não faz mais diferença...nem Nerudae nem Pinochet vivem....ambos passaram e suas histórias ficaram. Então....além de toda essa história belíssima, fui seduzida pelas livrarias de Santiago. Foram as melhores compras que fiz. Apesar do peso na mala, pude ter acesso a títulos em espanhol, mais que especiais, como por exemplo, o livro deGabriel Garcia Marquez   Memóriasde Mis Putas Tristes. Além disso, tem (a polêmica) Isabel Allende que me encanta profundamente e com ela aprendi a ler muito bem em espanhol. De uma sensibilidade e simplicidade. Uma novelista de primeira. Assim fiz esse tour...umas das muitas viagens que fiz sozinha. Descobri um inverno rigoroso, vi a neve pela 1ª. vez, vulcões adormecidos e águas de cor esmeralda. Apreciei vinhos e gastronomia. Perdi-me em Santiago e me encontrei nas grandes livrarias. Tive muitos dias que fiquei sozinha,  mas nenhum dia de solidão... Encantei-me com a história e a garra desse povo....voltei transbordando de vontade de explorar “outros mundos”....esse roteiro me trouxe coragem e me deu poesia para todos os outros dias do resto de minha vida.
 

05 setembro, 2012

quarta-feira, setembro 05, 2012

ARAXÁ.... para pequenos deleites!

Sem nenhuma ambição de planejamento para o roteiro, me permiti essa pequena “fuga” do dia-a-dia e fui surpreendida pela riqueza cultural e prazer.  Uma imersão num pedaço da história do Brasil, desfrutando de regalias e deleites a preços justos.
Em Araxá-MG, o Tauá Grande Hotel oferece um serviço ímpar em simpatia, qualidade, criatividade, gastronomia e localização. Uma atração peculiar com muito bom gosto que incita do mais puro ócio aos melhores cuidados com a beleza e saúde. A TAM  tem voos para Araxá, mas eu fiz esse percurso de carro, saindo de Brasília. Araxá fica a uns 400 km de Belo Horizonte. Sugiro aproveitar feriados prolongados ou ter mais do que um fim de semana e como ótima escolha, recomendo  3 dias de permanência. O Tauá Grande Hotel é um resort muito famoso pelas Termas de Araxá e, por isso, tem preços de resort. Percebi que por não ser praia, o preço reflete exatamente a estrutura e a qualidade de serviços que oferecem. Uma observação especial sobre as acomodações, dignas da família real, com mobiliários e arquiteturas antigos, porém de uma conservação e luxo impressionantes. Senti-me hospedada num castelo.

Um pouco da história....D. Beija, a maior cortesã que o Brasil conheceu....
D.Beija é uma lenda contada por muitos e de muitas formas. Viveu no século XVIII. Foi interpretada e imortalizada pela magnífica Maitê Proença numa telenovela, projetando para o Brasil sua história.
Considerada a alegria dos homens e o pavor das mulheres...foi a maior cortesã que o Brasil conheceu. Beija foi raptada pelo ouvidor do rei, desgraçando sua vida e seu grande amor que ficou em Araxá. Por dois anos viveu como amante do Ouvidor, quando se transforma numa cortesã em sinal de vingança. O “tal” a abandona quando se transfere para a Corte em Portugal e Beija, já como cortesã conhecida, decide voltar para seu amor em Araxá. Como o tempo é cruel, seu amor estava casado. Ela então promete não amar a nenhum outro homem e funda a Chácara do Jatobá, um bordel que além de ter se transformado em mito, escandalizou as famílias mais conservadoras de Araxá. Sua fama varreu o Brasil, e muitos homens vinham de longe para se deitar com Beija e descobrirem seus encantos e beleza. Sem conseguir esquecer o amado, manda matá-lo, mas foi absolvida de seu julgamento, graças aos amigos. Desiludida, deixa Araxá, se mudando para Bagagem (hoje Estrela do Sul) onde chegou a tocar garimpo e ganhou muito dinheiro com os diamantes.
 


A viagem tornou-se especial já no início, imaginando a vida dessa mulher marcante que é um pedaço da nossa história no Brasil. Observando a estrada, as paisagens são diferentes para quem vive na cidade e as paradas engraçadas retratando bem o interior do país e a simplicidade do homem do campo. Aproveitei para experimentar e relembrar as comidinhas de estrada, ouvir as conversas no balcão das lanchonetes e observar os costumes...e assim a viagem foi ficando colorida....fui transformando uma pequena viagem, numa grande experiência....
Chegando no Hotel, a vista não alcança a grandiosidade dessa arquitetura inspirada nas antigas construções coloniais dos países espanhóis...a recepção lindamente ornamentada, mostra a imponência da história. É de uma delicadeza e aconchego, tal qual o atendimento das pessoas que recebem cada visitante num tom “familiar”.
Os salões, lustres de cristais, vitrais maravilhosos e as janelas com vistas para os jardins são um espetáculo à parte. As terraças merecem ser visitadas à noite por oferecerem uma visão “hollywoodiana” da paisagem noturna iluminada. Muita coisa perdida nessa região e muitos “causos” deveriam ser histórias e não lendas.
O Grande Hotel foi inaugurado em 1944 por Getulio Vargas, tem os jardins de Burle Marx, os mais lindos que já vi. Todos os presidentes estiveram lá por algum motivo e muitas destas salas presenciaram importantes decisões políticas.  Oferece uma gama de restaurantes com uma culinária local (de minassssss) bem peculiar, “vintage” e até meio “démodé”, mas que dão um ar elegante ao local. Me encantei pelo piano bar que funciona à noite com uma decoração meio anos 50 e um teatro com atrações especiais. E para desfrutar da noite e entrar no clima que o ambiente oferece, um drink “D.Beija” pode ser servido na varanda fora dos restaurantes. Além de café da manhã, almoço e jantar...o hotel oferece o chá das 5, delicadeza que tem seu valor.  A paisagem é de uma beleza indescritível, construída por Burle Marx. Podemos desfrutá-la com uma corrida ou caminhada, bem como em passeios pelo jardim para  fotos ...e fiz isso com minha mãe...uma flor, no meio de tantas...e que pela moldura da paisagem, não dava para ficar sem fazer uma pose. 


Além disso, o Hotel oferece trilhas, caiaque, arco e flecha, quadra, tênis, cavalos, charretes...passeios históricos na redondeza, cuja atração é a fonte D.Beija, chamada antigamente de Fonte da Jumenta. E na frente do hotel, uma Igreja perfeita para um momento de reflexão. Vale muito programar visita ao Museu de D.Beija e conhecer um pouco os costumes do Brasil Colonial e sua história. O museu fica num sobrado onde viveu a cortesã, na Praça Matriz. Foi criado por Assis Chateaubriand, quando se encantou com sua história. Como são poucos documentos que comprovam sua existência, esse museu mostra fotos de seus filhos, alguns objetos pessoais e documentos de propriedades. Beija nunca deixou retratar-se e a beleza ainda hoje penetra no imaginário masculino....
 

Termas e Massagens .....todas merecemos um dia de Beija.....
As termas são o ponto alto. Famosas pelos banhos terapêuticos e embelezadores.
Conta a lenda sobre a “Fonte da Jumenta”, cuja água concedia juventude, saúde e beleza era o local que D.Beija banhava-se todos os dias. Aproveitando a mágica do local, fiz um programa completo com banhos e massagens.  O Hotel é ligado por um túnel direto às termas, cuja história é muito bem contada pelo guia, em tour para grupos de turistas. Esse local foi utilizado como “hospital” para tratamentos medicinais. Hoje, é um SPA indicado para aliviar o stress do dia-a-dia com banhos terapêuticos e massagens. Dizem que os banhos de lama curam artrite, problemas de pele e inflamações.
No hall de entrada das termas, um local para descanso. No alto, um painel retratando todos os banhos da história do mundo contornando-o e no teto, o vitral perfeito. Descansado nas “chaises” pessoas esquecem o tempo ali, entre uma massagem e outra. Os banhos de lama negra (terapêuticos) são feitos em locais onde foram leitos de tratamento, em banheiras antigas, cujo cenário seria amedrontador se não fosse a delicadeza das atendentes e a decoração do local, com uma musica bem suave.
A massagem foi um capítulo à parte. Optei em fazer com um deficiente visual como uma nova experiência. O toque desse massagista foi diferente de outros, pois ele precisava conhecer, pelo tato, a estrutura do meu corpo. Qual foi minha surpresa quando ele, rapidamente e sutilmente, identificou os pontos de dores e tensões.  Eu, já entregue ao relaxamento, eis que ele me pergunta de sobressalto se meus olhos eram verdes...no susto de ser surpreendida...retruquei... “ué! por que?” E ele me diz com muita certeza que nem tive coragem de contestar, “pelo contorno de seu rosto e a forma dos cabelos, seus olhos devem ser esverdeados...” e me lembrei da tão conhecida frase atribuída a Antoine de Saint-Exupéry ...Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos....e aquele deficiente (?) me pareceu enxergar com o coração sem saber o que era belo ou não, sem receio de expor sua sensibilidade e convicção! Quantas pessoas dotadas de olhos sadios não conseguem ver uma pequena beleza ou qualidade no “outro”? e a partir daquele dia, meus olhos ficaram verdes, para mim e para ele.

23 agosto, 2012

quinta-feira, agosto 23, 2012

MARROCOS PARTE I – Sozinha e muito bem acompanhada....

O roteiro, programado pela Dayse - minha agente de viagem (New Age), foi uma descoberta sob medida...um tour para o Marrocos saindo de Málaga, cruzando o Gibraltar de Ferry Boat, como descrevi no post de Málaga.
O percurso era nas principais cidades para um período de 8 dias:TANGER/RABAT/ CASABLANCA/MARRAKECH/MEKNES/FEZ.
Eu estava sozinha e a Dayse me recomendou um grupo fechado. O local, além de ser uma monarquia com regras bem rígidas, é um país islâmico e muito diferente para nós ocidentais. Além disso, com grupo fechado eu desfrutei dos passeios com guia em espanhol, uma riqueza de detalhes impressionante e gratificante, além de ter feito mais 13 amigos espalhados pelo mundo. Fui sozinha, mas não tive um dia de solidão.
 
A ansiedade....o medo....e a expectativa
“Eram 06 da manhã, e o dia nem tinha nascido...dentro do micro-ônibus que nos levaria ao porto, o sol chegava e eu pensava como seria passar para o lado de lá...o lado que sempre falamos e nunca vimos...o lado que sempre aparece na História do mundo....o lado sofrido...o lado explorado...o lado que acolheu culturas e o lado que preservou a fé na época das perseguições religiosas...o lado que escolheu, o lado que foi excluído, o lado que choca e que dá medo...”
E não parava de pensar...como seria estar do lado de lá? Foi assim que segui para o Marrocos...   
 
Chegamos em Algeciras, Porto de Tarifa, para embarque no Ferry Boat e travessia do Gilbraltar.  Essa travessia é tensa e confusa. O guia nos acompanha até a porta do embarque com os tíquetes. Depois só teremos outro guia “após” o desembarque. Ou seja, todo o tramite de descer com a bagagem, guardá-la, liberação do passaporte para entrada no país, enfim....tudo é feito dentro do barco e com um atendimento lamentável. A bagagem é acondicionada no térreo da embarcação, sem nenhuma identificação, junto com as cargas e os carros. Apesar disso, tudo me pareceu bem seguro. A abordagem dos carregadores de bagagem para facilitar o acesso e a saída do porto é um incomodo necessário. E os "pedintes de dinheiro" é uma constante. Sobrevivemos à travessia e os 13 companheiros de viagem estavam muito assustados com essa 1ª. experiência. Mas essa era a “deixa” que precisávamos para entender uma cultura tão distinta e autêntica.
Gibraltar, território britânico, cujo nome (árabe) significa "montanha do Tarique", foi em homenagem ao general muçulmano Tariq ibn Ziyad que no ano de 711 DC iniciou a conquista na região do reino visigótico. O Estreito de Gibraltar é uma separação entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico e entre dois continentes - Europa e África. É nesse estreito que a gente vê a história como ela é: Europa e África se misturam...vários povos se mesclaram.....uma infinidade de culturas convivem pacificamente (ou não!), um mesmo pedaço de terra é compartilhado desde muito tempo. Ao desembarcar, já do lado da África, a sensação era o peso da história, como se existissem vários povos vivendo num tempo quântico. Além do que visualizamos, tive a sensação de que outros mundos estão ali. O ar é denso, o espaço parece apertado e a visão não acompanha tanto movimento. Entrei na África com a certeza de estar pisando num solo “sagrado” e com a energia de gerações de povos milenares.


MARROCOS – Um pedaço da África, no berço das nações...
Todos os sentidos se intensificam no Marrocos: a visão com as cores fortes das vestimentas, o tato pela textura das construções árabes, o paladar pela gastronomia picante em contra ponto à leveza do “té de menta”, o olfato pelos cheiros de especiarias e temperos e a audição pela língua francesa e árabe, que parecem musica. Em 1900 foi protetorado francês (daí ter como língua oficial o francês, além do árabe) e em 1956 conquistou a independência. A monarquia começa em 1957, com Mohammed V, da dinastia alauíta, considerado descendente de Maomé. Foi sucedido por Mulay Hassan, seu filho, que se tornou um rei muito querido por ter liderado a Marcha Verde de reconquista do Saara dos Espanhóis em 1974. Hoje, o rei é o filho de Hassan, Mohammed VI que trouxe um ar mais moderno para a cidade e tem muito interesse em desenvolver o turismo e industria cinematográfica. Curiosidades sobre o mundo árabe islâmico:
  • Estão no ano 1.436 DC porque seguem o calendário da mudança de Maomé (622 DC) e também o calendário Lunar cuja medida são de 29 e 30 dias.
  • Apesar de ser maioria muçulmana, reconhecem o judaísmo e o cristianismo como religiões.
  • A gastronomia é forte e rica: tajines (cozidos), cuscuz, muitos frutos secos. O chá de menta é como se fosse “nosso cafezinho”. Nada de bebida alcoólica à vista!
  • As mulheres não frequentam cafés e bares (desacompanhadas principalmente) e recomendo não olhar diretamente nos olhos dos marroquinos....muito complicado... 
  • A Medina é parte mais antiga da cidade, cercada por muralhas. É onde tudo acontece. As Medinas têm os Souk’sque são mercados com lojas de rua, verdadeiros labirintos. Sempre existe uma Mesquita, um Hamman (para a pureza física, local de fazer abluções antes de orar), Medersas – escolas corânicas, padaria publica e fonte de água potável.

Uma descoberta à parte....Piratas e Corsários
As estórias de piratas sempre foram para mim, pura ficção. No Marrocos descobri que eles fazem parte de sua história real, existiram e com um propósito nobre (para a época, claro!). Desde o período da queda do império Romano eles atuavam no Mediterrâneo, porém, na época da expulsão dos muçulmanos e judeus pelos reis católicos, muitos migraram para essa região, vindos de Andaluzia. Alguns mais revoltados decidiram se vingar dos cristãos, tornando-se piratas e praticando saques e roubos a navios espanhóis e cristãos. A causa era a vingança pautada pelo conflito religioso em que atacavam embarcações cristãs. Por isso passaram a ser vistos como Corsários, agindo em prol de uma diferença religiosa.

Inshallah (se Deus quiser) seus olhos consigam aqui capturar uma pequena parte do MARROCOS que nos abraça com suas cores, seus souks, seus sons e sua história......




MARROCOS - TANGER...A cidade internacional...
Local de desembarque do Ferry Boat.  No passado foi de grande importância e com forte presença da história europeia, pois recebia com frequência povos da Europa que fugiam da Guerra. Uma cidade internacional cuja zona era neutra. Uma boa maneira de entender a cidade é o livro Entre Costuras da Maria Dueñas, cuja história é um romance com pano de fundo a Guerra Civil e que se passa em TANGER. 
Conheci, uma cidade estilosa, moderna e cheia de glamour, que serviu de fonte de inspiração para vários autores, principalmente na década de 50, como por exemplo, Paul Bowles autor do célebre livro "O Céu que nos protege"

MARROCOS – RABAT... A capital...
A capital é bem organizada. Essa foi a visão que tive. Ficamos no Rabat ChellahHotel
Iniciamos nossa visita pelo Palácio Real, construído em 1864 e é a residência oficial, embora o rei não resida permanentemente no local. Não se pode fotografar diretamente os guardas do rei, sob o risco de ter sua maquina confiscada. Todos os edifícios estão cobertos de telhas verdes, um material reservado para realeza e edifícios religiosos muçulmanos. Seguimos para a Torre Hassan, a mesquita construída por Yacoub El Mansour (sultão almóada que transferiu a capital para Rabat e era da dinastia saadiana). Ficou inacabada com a sua morte. A Mesquita “incompleta” é vista pelas colunas ao fundo da foto. O que deveria ser uma Mesquita, parece um jardim de grossas colunas. Neste local, Mohamed V construiu seu mausoléu e de seus filhos. Todos estão enterrados aqui.   
 
















A Fortaleza/Kasbash dos Oudaias, construída final sec. XII por Yacoub El Mansour tem característica de uma fortaleza (casbá) medieval e o ocre, o vermelho-terra predomina. As curvas dos portais e a textura mostram o contraste da delicadeza e rusticidade. Aqui parece que fui transportada para outro tempo. Kasbash dos Oudaias foi o local que marcou em RABAT a minha memória. 

 
 
 
 
 
 


MARROCOS – CASABLANCA... Play it, Sam...
“Um dos momentos mais emocionantes do filme acontece quando pede para ele tocar a música que ouviram juntos em Paris"
Construída pelos franceses, é uma cidade portuária, cujo nome é literalmente sobre a primeira casa construída, depois do terremoto de 1755, branca, para servir como ponto de referência aos viajantes que chegavam.

Ficou conhecida pelo filme CASABLANCA cenário do romance de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman durante a Segunda Guerra Mundial. Qual foi minha decepção porque nenhuma cena do filme foi feita em CASABLANCA e a cidade que inspirou a temática do filme foi TANGER. Mas alguém decidiu construir um café “Ricks Café” fazendo uma alusão especial de que CASABLANCAsempre será do filme. 
Depois dessa pequena frustração, seguimos para a Mesquita de Hassan II– A 3ª. terceira maior do mundo, construída sobre águas. Os fieis se ajoelham sobre um piso de vidro que revela o oceano. Comporta 80 mil pessoas. A sala de ablução é um capítulo à parte de tanta beleza. Apesar de ser uma construção Moderna (inaugurada em 1993), os artesãos marroquinos preservaram a estética tradicional e trabalharam com mármore, granito, madeira, mosaicos e estuque.  








É um símbolo de poder e devoção de uma religião tão antiga e polêmica, num mundo tão moderno. 

Então...conhecer essas cidades gradativamente foram fundamentais para me adaptar com a cultura e história e, ao chegar em Marrakech, poder entender a suntuosidade do Marrocos.....e a viagem segue...cheia de surpresas....


29 julho, 2012

domingo, julho 29, 2012

ANDALUZIA – Málaga, um caminho para a África!

Conhecer Málaga foi uma oportunidade integrada com o curso de Flamenco do Festival de Jerez 2012 e a proximidade física para o Marrocos, com um detalhe: eu queria cruzar o Gibraltar pelo mar. A minha agente de viagens, Dayse - New Age, descobriu um grupo saindo de Málaga para o Marrocos no período que eu queria e de ferry boat...além disso, o custo terrestre era muito atrativo. Programei 2 dias de permanência em Málaga, antes de seguir para Marrocos.
Esta seria a 4ª. cidade de Andaluzia que eu teria a chance de conhecer e me aprofundar na cultura e na história. E claro, uma referência para aficionados pelo flamenco como eu.
Como tinha somente 2 dias, programei alguns locais para mais próximos do centro histórico para conhecer e aproveitei para explorar a cidade caminhando à noite. Era inverno e carnaval, por isso a parte litorânea não estava atrativa para mim. Concentrei-me na cultura e na gastronomia e confesso que o que mais me encantou foi a noite de Málaga. A cidade de Pablo Picasso e Antonio Banderas é leve, fácil, alegre e bem cosmopolita. Adorei a proximidade de tudo...todas as culturas lado a lado. Uma cidade descontraída onde as noites (mesmo de inverno) são quentes e animadas, regadas pelo famoso vinho Moscatel.
Como todas as cidades Andaluzas, aqui passaram fenícios, romanos e árabes. Também foi um berço para o desenvolvimento do flamenco, onde surgiu o VERDIALES, que é um cante folclórico, anterior ao flamenco, de grande influência árabe e em meados do século XIX aparece um baile chamado “MALAGUEÑA", procedente do FANDANGO. Ambos se aflamencam e fazem parte de nosso repertório de cante e baile flamenco. 
Além de ser uma cidade artística, moderna, turística por suas praias e sol e uma referência de flamenco, existe um patrimônio histórico e cultural que merecem atenção especial.
Comecei explorando a Calle Marques de Lários, onde existe uma concentração de comércio e bares/cafés e restaurantes, além de dar acesso à parte mais histórica da cidade. Toda a rua estava adornada para o carnaval e muitos blocos desfilavam um carnaval jocoso com musicas que faziam referência a “chistes” locais. Fiquei hospedada no hotel Bahia Málaga, muito próximo à Marqués de Lários e Avenida Principal, com excelente localização e quartos bem agradáveis.
Seguindo a Calle Marqués de Lários, encontrei o Monumento a Larios, do século XIX, dedicado a Manuel Domingo Larios y Larios quem construiu a dita rua (que leva seu nome). A Marques de Lários é excelente para acesso a vários pontos turísticos. 
Seguindo-a, descobri a Catedral que tem sua origem nos séculos XVI/XVIII e se chama “Encarnación”. No passado, foi uma Mesquita. A obra ficou inacabada, por isso seu apelido “La  Manquita”. Caminhando para depois da catedral, encontramos o Alcazar que deve ter sido construído entre os séculos XI/XIV e já foi um Palácio muçulmano e o Teatro Romano – do Século I AC, está aos pés do Alcazar. Pela história, sabe-se que foi da época de Augusto e depois foi utilizado para armazenamento de materiais do período muçulmano. 
Pelos arredores, é fácil encontrar o Museo Picasso, que fica no Palácio de Buenavista. Um prédio renascentista do século XVI que abriga a coleção permanente de Picasso (mais de 200 obras entre pinturas, desenhos, esculturas, etc), bem como peças fenícias.
E, claro, não poderia deixar de falar sobre o Museo de Arte Flamenco, "PeñaJuan Breva" que tem mais de 5000 peças, entre discos, guitarras, aparatos, adereços de baile, vestidos, etc, do período do século XIX/XX. No térreo do museu tem um bar e espaço para apresentações de flamenco.
A gastronomia é uma diversão à parte....muitos pescados e vinhos. Deliciei-me no Moscatel, o vinho mais consumido na cidade. E pelo frio que estava, caiu muito bem. Por isso que as noites são quentes....imperdível...não deixe de conhecer :

El Chinitas, fica no centro histórico, com acesso pela Calle Marques de Larios. Um local aconchegante, tradicional e de uma perfeição gastronômica, além do ambiente flamenco. Possui salas mais reservadas para grupos e uma decoração bem antiga. No térreo fica o bar o nos andares superiores o restaurante. Bastante romântico e recomendado para noites especiais. E ponto!
El Pimpi, é uma bodega mais que especial e me encantou. De noite, na parte interior, um ambiente típico andaluz, as garçonetes se vestem de flamencas, muita gente jovem e musica flamenca. Passei uma das noites mais relaxadas e alegres. De dia, de frente para o Teatro Romano e Alcazar, ao ar livre, um local de deleite visual e apreciação das tapas e, claro, famoso Moscatel...Esse local é para ir e ficar, sem pressa...e foi aí que me despedi de Málaga, mais uma janela Andaluza.
De Málaga, seguimos para Algeciras (onde fica o Porto de Tarifa – saída do ferry boat para Marrocos). Um pedaço de Andaluzia (Cadiz), Algeciras tem nome árabe, com sangue cigano. Cidade de Paco de Lucia ...quem compôs “Entre Dos Águas”....uma homenagem à cidade que fica entre as águas do Mediterrâneo e Atlântico...Algeciras nem está lá e nem cá..Algeciras...é a porta para um mundo diferente....é a porta para a África e uma nova aventura recomeça...brevemente Marrocos....


E a sequência Andaluzia chega ao fim...Falamos de Andaluzia com Flamenco e Turismo. Detalhamos Sevilha, Granada, Córdoba, Cadiz e Málaga....com tantas histórias e dicas, Andaluzia está muito bem retratada e divulgada por cada um que passou por aqui.
Para mim, a melhor definição de Andaluzia e a história de seus povos ciganos, árabes, judeus é que andar por suas cidades é ter a sensação de estar “retornando para minha casa”. Acredito que cada um que esteve aqui tenha a mesma sensação: uma experiência de vidas passadas. 
O povo flamenco é assim...ganha o mundo...vai para bem longe, mas sempre volta para sua casa, para os seus e para sua história. Somos muitos espalhados pelo mundo e sempre nos encontramos em algum ponto de Andaluzia para matar nossa saudade de outras vidas, como um povo que não se vê há muito tempo. E sempre seguimos para outras terras, levando nossa cultura e paixão.

Andrea Pires

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