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28 setembro, 2013

sábado, setembro 28, 2013

GRANADA ESPANHA ....Voltando para casa

Ao todo foram 4 vezes em Granada. Se é verdade que cada um tem seu local de paixão, o meu, definitivamente, é Andaluzia e mais precisamente, Granada. Não tenho uma explicação porque essa cidade exerce tanta influência sobre mim.  Granada é uma mistura viva e intensa de árabes, ciganos e judeus. Ainda não se sabe se Granada tem Alhambra ou Alhambra tem Granada...mas certo e fato é que quem a conhece, não esquece jamais. Se divide em 02 partes distintas: a partir da Plaza Nueva, encontramos o Bairro de Albaycin, Sacromonte e Alhambra imersas numa história da época dos mouros e católicos, onde árabes, judeus e ciganos se mesclaram para sobreviver, e, por conseguinte, surge daí o flamenco. Depois da Plaza Nueva (descendo a Gran Vía), a cidade toma forma de modernidade com o centro comercial e a Catedral, cuja realidade é mais próxima do que estamos acostumados, misturando o novo e o antigo da arquitetura.
Desta vez minha ideia foi uma imersão no mundo flamenco com uma programação de 3 horas diárias de aulas por 2 semanas na Escola Carmen Cuevas . A escola oferece cursos de espanhol, guitarra flamenca, história de flamenco e baile/técnica flamenco. A qualidade é comprovada pela frequência de alunos de toda parte do mundo, pois abraça o turista que quer viver um pouco de Andaluzia, atendendo aos vários tipos de necessidades. Além disso, oferece também alojamentos (aptos. ou casas) e o mais importante: pessoas de todas as idades estão aqui!
Além das aulas, fui buscar e experimentar coisas novas em Granada, onde tive a chance de desfrutá-la calmamente no calor de um verão intenso com temperatura próxima aos 44 graus. A cidade ferve em todos os sentidos nessa época: muitos jovens, estudantes em férias, turistas de passagem, pessoas alternativas e sem rumo, tudo isso e uma vontade imensa de ficar parada, observando e deixando o ar de Granada falar. Vi e conheci pessoas (muitos brasileiros) que estavam “de passagem por Granada”, arrependidos de não terem tido informações prévias sobre a riqueza cultural do local e extasiadas com tanta coisa que não poderia ser vista ou vivida, porque estavam de passagem...e gente...passagem em Granada não dá para ser feita numa tarde (vamos combinar né?) ...então, amigos, por favor, mesmo de passagem, reservem pelo menos 2 dias/3 noites para Granada. Garanto que será uma experiência única.
Vivendo Granada
Fiquei hospedada na Plaza Nueva, no hotel MaciáPlaza um ponto estratégico que divide a Granada rustica da moderna. Seguia diariamente para Albaycin (uns 3kms), passando por Alhambra TODOS OS DIAS e cada dia via uma Alhambra diferente. As noites foram para os shows de flamenco e tapear nos bares, sem pressa. Essa é uma coisa importante: não tenha pressa e todos seus sentidos estarão extremamente aguçados. Deixe Granada entrar em você.  Numa noite dessas, fui ao Hamman Andaluside Granada. Fica numa rua no início da Carrera del Darro. Foi providencial fazê-lo à noite depois de 1 dia intenso de aulas.
Uma pausa ao estilo árabe, permitindo-me banhos de temperaturas distintas, massagens e o típico chá de menta. Apesar de ser misto (homens e mulheres juntos), todos estão em trajes de banhos e não há “conversas” para não atrapalhar o momento de descanso e meditação. O local, com arquitetura tipicamente árabe, a musica ambiente que envolve o silencio e a iluminação (sempre penumbra), tudo isso nos deixa anônimos, quietos e meditativos. Fazer um hamman é uma experiência de pura luxuria e muito contato consigo mesmo. As vozes internas ficam nítidas e a mente clara. Um tempo de reflexão e relaxamento. Além disso, estar em Granada é permitir-se ao desfrute, deixando-se esquecer o presente e viajar num tempo de pequenos prazeres que os árabes já tinham há milhares de anos atrás.... Ah! Isso não tem preço.
 

Ali, bem pertinho da Plaza Nueva, tem a concentração de restaurantes e teterias (casas de chá) árabes e o Mercado Árabe - La Alcaicería (onde foi uma antiga medina muçulmana). O local fica entre ruas estreitas cobertas por “tendas” árabes onde pode-se comprar um típico artesanato e ainda parar para um chá. Durante as noites de verão o mercado ferve no vai-e-vem de turistas loucos com o artesanato local.
Aos pés de Alhambra 
Durante o dia, nada melhor que ficar aos pés de Alhambra, contemplando a suntuosidade e a delicadeza desse palácio, cujo reino foi marcado pela tolerância religiosa de 1200 até 1492, quando a cidade foi conquistada pelos reis católicos. Contemplá-la, ouvindo o barulho do rio e o vento nas árvores, faz de Alhambra uma rainha. Programa especial é jantar num dos restaurantes no Paseo de Los Tristes, sob a vista do Palácio e imaginando histórias. Descobri que existe a visita dentro dos palácios à noite, com uma perspectiva bem diferente dos passeios durante o dia. É permitido visitar os Palácios e admirar a arquitetura contornada pela luz da noite e a penumbra dos jardins. E nessa noite era lua cheia e a cada ambiente visitado, imaginei e invejei Washington Irving escrevendo seus contos....e os barulhos? A mistura da água das fontes, do vento leve de verão, faz com que Alhambra seja uma orquestra ouvida, sentida e desejada.
 


 
 Albaycin 
 Albaycin é um pedaço histórico dos mais importantes de Granada que mostra a presença árabe na arquitetura de suas ruas e casas com seus jardins que exalam jasmim. A escola fica no coração de Albaycin. Subir suas ladeiras no silencio do calor escaldante e mortal, passando pelas casas que tão brancas refletem a luz que num momento confundem os olhos, explica porque no verão todos ficam trancados em suas casas, no frescor de seus jardins. De repente, entre uma ladeira e outra, aparecem praças como oásis com seus pequenos restaurantes e um bom local para descanso. E a vontade é nunca mais sair de lá, até o calor acabar. Passagem obrigatória para a melhor foto da vista de Alhambra e terminar a visita ao bairro, é chegar ao Mirador San Nicholas.
 
 

As cuevas de Sacromonte 
Sacromonte merece ser visitada de manhã cedo. A subida é forte, mas a vista e a caminhada são revigorantes. Está de frente com Alhambra e as “cuevas” abrigaram muçulmanos, judeus e ciganos, na época da perseguição católica. O Museu de Sacromonte mantém preservado um espaço típico dos costumes da comunidade cigana. À noite em Sacromonte, pode ter flamenco ou cine ao ar livre, enfim...subir Sacromonte, é passar pelas cuevas que foram Zambras e que hoje oferecem shows para Turistas com o que Granada tem de mais representativo de flamenco.  É preciso seguir para a Abadia de Sacromonte construída no séc. XVII, sob o lugar que foram encontradas relíquias do apóstolo Santiago Maior e os famosos livros plúmbeos (polêmicos até hoje), que são placas em escrita árabe que relatavam o martírio de São Cecílio e seus companheiros numa fusão de relatos cristãos e muçulmanos. 

 
 
As noites de Granada 

Nada melhor do que sair de bar em bar. Na própria Plaza Nueva, as opções são imensas, mas é no bairro de Realejo (Campo Príncipe) que as tabernas e bares se concentram numa variedade e preços justos. Em Granada, é muito comum ter a “tapa” acompanhada com a bebida, ou seja, paga bebida e come de graça!. Então, a desculpa para beber é mais do que saudável: com certeza haverá comida. Ninguém fica de estômago vazio. Claro que quando estamos muito tempo num lugar, elegemos aquele ponto frequente, que no caso foi a "La Gran Taberna"...porque essa? Bem, em frente ao hotel e era o único bar aberto com comida depois dos shows de flamenco....parada obrigatória 
 
Flamenco em Granada – Com minha licença poética.... 
 Falar do estilo de flamenco de Granada para mim é mais que importante. Apesar do flamenco de Granada não ter tanta visibilidade fora de lá, foi aqui que eu vi o estilo que mais me encantou e me identifiquei: eu chamo do estilo terra, que dança meio que agarrado ao chão.... Tudo é muito rustico, provavelmente não tem tanta técnica e sofisticação como em outras cidades, porque os gestos são fortes e toscos, o floreio lembra as mulheres do campo, os movimentos do corpo são brutos, o sapateado é “terra”, as roupas não se combinam em nada mesmo, a maquiagem exagerada hipnotiza: olhos pretos rasgados e lábios vermelhos. Os homens são bem “ciganos” e muito sensuais, com os olhos daqueles bem “cafajestes”, sabe? Pois então. Esse flamenco veio das Zambras.....e só em Granada tem Zambras...que quer dizer ruído, baile acompanhado de cante com instrumentos. Era uma expressão usada quando se cantava e bailava nas festas de casamento, religiosas, etc. As Zambras começaram em Sacromonte com os mouros e ciganos e somente a partir de 1820 com os viajantes franceses da época romântica, Washington Irving e outros intelectuais da época, que Granada e suas Zambras ficaram conhecidas por toda Europa. Eram artistas, escritores, intelectuais que cruzavam a Europa para conhecer as Zambras de Granada. Das várias surgidas no séc. XVI, somente a La Rocío e a Canastera ainda existem e as famílias daquela época (ciganas) que mais disseminaram as Zambras para o mundo foram os Heredias, Amaya, Maya, Cortés, Fernandez, Fajardo, Bustamente e Carmona. É gratificante presenciar as novas gerações perpetuando o que seus antepassados fundaram. Alguns ainda estão vinculados às cuevas de Sacromonte. Muitos são dessas famílias ciganas, outros adotaram essa cultura. O que importa mesmo é que a cultura está preservada com ares mais joviais e nessas 2 semanas de imersão total, conheci alguns bailaores (as) que fazem isso com muita paixão e simplicidade, mostrando o flamenco de Granada com toda sua força e razão de ser:
PILAR FAJARDO, minha maestra mais que especial, pois foi a 1ª. quando estive em Granada para aulas de flamenco em 2008 e sigo inspirada com seu estilo. Pilar tem uma simpatia típica e o flamenco mais puro que alguém pode presenciar. Tem um aire próprio. Ela é de Algeciras (Cádiz) e foi aprendiz de Antonio el Pipa,  Maria del Mar Moreno, Angelita Gómez, Mercedez Ruiz, Yolanda Heredia, Andrés Peña, Belén Maya, Rafaela Carrasco e Mario Maya.  Além de ser uma maestra da Carmen Cuevas, Pilar pode ser vista bailando em locais de flamenco à noite. Recomendo Le Chien Andalou onde Pilar baila como se estivesse em casa. Um local alternativo e tão pequeno que dá para sentir sua respiração a cada momento. Pilar quando baila exala sensualidade e leveza, conectada com a terra. Não tem uma pessoa que não fique hipnotizado e envolvido pela forma de bailar dessa cigana. E a cada arremate ou uma sequencia de sapateado, é como se voltasse no tempo e víssemos ali a mais pura expressão de um flamenco cigano.
 
ESTEFANIA MARTINEZ PUYOL foi minha maestra agora. Tem na sua formação o flamenco e o clássico espanhol, o que torna seu baile peculiar: a mistura dessas influências enriqueceram de tal forma seu estilo que não dá para separar a bailarina da bailaora.  Pessoalmente, uma menina doce e aparentemente frágil. No palco, uma mulher cujos olhos dançam e seus braços se movem de tal forma que parecem voar e num suspiro, vem uma força que não se sabe de onde. Estefania tem uma técnica perfeita e se transforma assim que pisa no tablado de Venta los Gallo.
 
MARI CARMEN GUERRERO, a grande maestra é de Albayzín. Que sorte ter tido aulas com ela. Nasceu no meio dos grandes do flamenco. Cresceu nos tablados, foi aluna de Manolete, Mariquilla, La Presy, Adela Campallo, Pastora Galván, Manuel Liñan...essa é grande mesmo e sua paixão vê-se refletida na sua própria filha: Patricia Guerrero. Mari Carmen tem uma didática muito típica e pessoal, pois o flamenco flui em seu corpo com uma obviedade impressionante. Ao ensinar, não tem quem não acredite que não possa dançar. Uma maestra especial que (infelizmente) não encontramos nas noites de Granada bailando, mas encontramos na escola como uma das mais importantes maestras. Maestra, te reverencio!
 
PATRICIA GUERRERO, filha de Mari Carmen Guerrero, nasceu em Granada. Uma revelação sem precedentes, uma menina que está deixando um legado importantíssimo para o flamenco. Aprendeu com sua mãe, claro, mas também com  La Presy, Mario Maya, Belén Maya, Rafaela Carrasco e Juan Andrés Maya. Patricia leva para todo o mundo um flamenco forte, técnico e de movimentos perfeitos. Apesar da aparente fragilidade de menina, quando baila, cresce e se transforma numa bailaora, onde todas as histórias parecem contadas em seu baile. Patricia carrega a história e abre um caminho para o novo.
 
ADRIAN SANCHEZ é de Granada e teve sua formação na escola de  Mariquilla. Fundou sua própria Cia. Em 1995 – Taracea e atualmente tem uma escola em Granada. Adrian é um atleta flamenco que acompanhou Patricia Guerrero na Casa del Arte Flamenco, deixando uma marca única.  Quando baila sua uma técnica limpa e seu sapateado de luxo, a sensação é que ele está andando sobre água, de tão leve, elegante e sedutor.  
 
IVAN VARGAS HEREDIA, um diamante bruto e intenso. Vi esse rapaz em “Los Veranos de Corral” com seu espetáculo “Yo Mismo”. Um menino cigano típico de cueva. Nascido em Sacromonte, na cueva “La Rocío” onde inicio o flamenco no seio de sua família “Los Maya”. Esse rapaz é sobrinho de Juan Andres Maya, representando uma dinastia de flamenco das mais importante de Granada : Manolete, Juan Andrés Maya, Mario Maya e Juan Maya “Marote”. O espetáculo “Yo Mismo” não poderia ser melhor descrito : ele dança “ele”, flamenco de cueva. Simples e tão preso nas suas raízes. Puro, romântico, sedutor e forte... Olé Ivan!
ALBERTO SELLES, jovem bailaor que já tem um espaço garantido no mundo flamenco. Foi discípulo de Angelita Gómez e Patricia Ibáñez em Jerez, se formou e se desenvolveu com Juan Ogalla, La Moneta, Farruquito, Javier Barón, Úrsula López, Rafael Campallo, Andrés Peña e Andrés Marín. Seu show em “Los Veranos de Corral” teve a preciosa participação de Javier Barón.Foi indescritível ver a criatura e o criador, bailando juntos. O tradicional e o moderno se complementando. Ambos com a mesma paixão e bailando um para o outro, sem se importarem com mais nada em volta deles. Os movimentos de Alberto Selles são perfeitos e a sua sintonia com Javier o coloca num patamar dos grandes mesmo, pois a cumplicidade de ambos deixa a plateia de boca aberta. Alberto é sofisticado e já é uma referência no universo flamenco.
FUENSANTA LA MONETA, de Granada, também começou na escola de Mariquilla e seguiu tendo aulas com Antonio Vallejo, Juan Andrés Maya y Manolete. Durante muito tempo se estacou no baile da cueva de Sacromonte «La Rocío». Conheci seu baile no show do Generalife com o Espetáculo “El Duende”, local de grande evento e de outra perspectiva, bem diferente das cuevas/zambras. Percebe-se que por mais trabalhada que seja seu baile, ela não conseguiu (graças a Deus) deixar o estilo de Granada, e mesmo vendo-a bailar bem de longe, sua rusticidade e a raiz de uma Cueva gritam e ela torna-se maior que Generalife.


E foi assim que pela 4ª. vez vi Granada...e pensando muito sobre a paixão de viajar e pelo flamenco, me deparei com um único medo que me assombra atualmente : medo de não me deslumbrar com as descobertas, encontros e reencontros. Não existe nada tão frustrante e deprimente quanto esse medo de não me surpreender com as coisas que a vida oferece. Nem sempre temos a vida que sonhamos, mas seguramente podemos fazê-la com emoção e vivê-la intensamente e por isso, quando passava sob os pés de Alhambra diariamente, entendia a grandiosidade do homem e a tolerância de Deus.  

31 março, 2013

domingo, março 31, 2013

Rio de Janeiro - RJ – para os amantes da história... Circuito da celebração da herança africana

Morro da Conceição e arredores – Praça Mauá, Saúde e Gamboa
Desafio enorme trazer para o blog um roteiro sobre o Rio de Janeiro, minha cidade Natal. Eu não o conheço com legitimidade para falar. Por isso, convidei minha prima irmã que vive o Rio de verdade e que tem uma paixão avassaladora por história e pela história do Brasil. Então, mantendo meus princípios de “realidade” e “possibilidades” com o blog, faço questão de mostrar o Rio de Janeiro mais que encantador, que ainda vou conhecer, mas que não tem a visibilidade merecida. Será que as pessoas sabem que o Império e seu legado estão na zona norte do Rio de Janeiro? E não estou falando de turismo de gringo em favela pacificada, estou falando da história da Família Real no Brasil, onde tudo começou. É lá, em São Cristóvão e arredores que está a “jóia” da coroa quando se fala da história do Brasil, porque era lá que a vida seguia com suas agruras, culturas mescladas e a formação da nossa sociedade. Esse roteiro é para quem gosta de “viajar”(em todos os sentidos!). Conhecer com quem é de lá, tem um gosto especial: beber na fonte com taça de cristal! Esse tour (de 1 dia) pode ser acoplado a qualquer tempo que você esteja no Rio. Além das maravilhas que já conhecemos e das praias badaladas, fazer esse tour pode ser um encontro com nossas raízes mais distantes...então...boa viagem com Márcia Almeida....
 
“Trabalhei, por muitos anos, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Da janela da minha sala, tinha uma visão dos morros da Providência e da Conceição. Já havia visitado o Morro da Providênciae nem sabia o nome do morro que ficava bem na frente do prédio (era o Morro da Conceição). Da janela, sempre via uma espécie de sobrado no alto, cercado por mato e muita sujeira, além de um pedaço de um observatório, no cume. Descobri que na altura desse sobrado, com muros em pedra e uma escadaria enorme, eram feitas as vendas no mercado escravo. Aquelas casas em ruínas e abandonadas, haviam sido um centro comercial de vidas humanas. Soube também que o mar chegava bem perto dali. Era um cais onde ancoravam os navios negreiros e de cargas. Após alguns anos, descobri várias histórias sobre o Morro da Conceição e a que mais me alegrou foi saber que não se tratava de um morro comum, como as chamadas favelas. Sim, lá as ruas são de paralelepípedos e as moradias são pequenos sobrados da época colonial do Brasil. Esse morro é um dos quatro onde se iniciou a colonização da cidade do Rio de Janeiro. Por estarem localizados estrategicamente em pontos que auxiliavam a defesa contra invasores, os Morros do Castelo (onde realmente se iniciou a ocupação da cidade), de Santo Antônio, de São Bento e da Conceição, eram os lugares mais seguros para que a população se alojasse. Área nobre nos séculos XVII e XVIII, o Morro da Conceição teve sua ocupação ligada a ordens religiosas e militares. Sempre fui muito interessada pelas histórias passadas. Comecei nas Grandes Guerras Mundiais, com afã de saber o que se passava na cabeça dos moradores das redondezas dos campos de concentração. Depois meu interesse se voltou para a vida dos escravos negros no Brasil e no mundo. Precisava saber como eram capturados, como sobreviviam ao transporte subumano e como era sua “adaptação” ao trabalho escravo. Com a escolha do Rio para sediar a Olimpíada 2016, começaram as mudanças. Uma delas foi a revitalização da zona portuária, começando pela Praça Mauá e pelo Morro da Conceição. Foi aí que uma porta se abriu para mim.
 
A descoberta do roteiro

Pelo Facebook, indicado por uma amiga/sobrinha (Rosane Nunes), soube de um guia que estava realizando um passeio guiado pelo Morro da Conceição. Convidei minha irmã Regina e fomos ao encontro do César Matos 
(roteirodoporto.blogspot.com/
celular21-6841 3932),
morador do morro e guia registrado. Antes de começar o roteiro, ele se apresentou e nos ofertou uma medalhinha de Nossa Senhora da Conceição, um mimo, que apesar de não ser católica, manterei guardada para sempre.  O circuito começa nas escadas que dão acesso ao morro, na Travessa do Liceu. É aqui que fica o Atelier Gaia - Casa de técnicas e Artes que além dos trabalhos expostos, possui cursos de fotografia e restauro, assim como o  Imaculada - Bar e Galeria, onde se pode saborear delícias, curtir música ao vivo e exposições (onde terminamos a noite, ao som da Roda de Samba do Sant'Anna. Subindo a Ladeira João Homem, nos deparamos com os sobrados, mesmo com alguns bem alterados em sua arquitetura, mas de beleza, simplicidade e encanto... Ali me dei conta de uma das mais belas vistas, onde pude observar, o interessante e belíssimo contraste, entre o atual e o antigo na arquitetura da cidade.  Alguns desses sobrados são ateliês, como o Atelier Paulo Dallier, um dos mais belos e emocionantes trabalhos que vi. Além da atenção e espontaneidade desse artista plástico, nos permite o livre acesso ao atelier que também é sua residência. Destaque para belo visual da Baía de Guanabara e arredores da Praça Mauá em seu terraço. Chegando ao topo do morro, encontramos a Praça Major Valô (ou Praça da Conceição) que é na verdade, um largo. No centro a figura imponente da imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do lugar. É nesse largo que fica a abandonada e antiga residência, do rico mercador de escravos, João Homem.
 
 
A história do Morro da Conceição e suas peculiaridades
Antes construída no Morro de São Bento, após a doação da área aos Monges Beneditinos, a ermida dedicada à N. Sra. da Conceição, padroeira de Portugal, é transferida para o morro em frente em 1634, que passa a se chamar Morro da Conceição. Poucos anos depois a ermida e respectiva chácara, de propriedade de um português, são doadas à Ordem do Carmo. Alguns anos depois passa a ser a moradia do bispo D. Francisco de São Jerônimo (cujo corpo foi sepultado no interior da Capela do Palácio), de onde surge o Palácio Episcopal da Conceição.  O edifício foi utilizado como residência até a transferência da sede para outro local No início do século XVIII, após nova invasão francesa, debelada pelas forças de Portugal é iniciada uma “muralha” destinada à defesa da cidade pelo lado de terra. É construída a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, devido à necessidade de instalar canhões em um local alto o suficiente para varrer com a sua artilharia o trecho da orla marítima que se estendia do Valongo (hoje Av. Barão de Tefé) à Praça Mauá. Essa fortaleza, construída nos fundos do terreno da ermida, descaracteriza a construção anterior. Em 1718, por ordem real, calaram seus canhões para não perturbar os religiosos vizinhos. Ficando dessa forma, conhecida como a única fortaleza, que nunca disparou um tiro de canhão. O “Portão de Armas”, ainda localizado no mesmo local, desde 1718, encontra-se em perfeito estado de conservação. Há ainda necessidade de falar da alta muralha de pedra, com quatro ângulos fortificados e um baluarte em cada ponta. Enquanto caminhávamos dentro da fortaleza, conhecemos um pouco da época religiosa da construção e da sua utilização como área militar. Duas características tão diferentes e distantes, situadas em um mesmo lugar, com um planejamento que não chega a nos fazer sentir como se estivéssemos em dois mundos completamente diferentes. A paz que representa o antigo Palácio Episcopal, e a guerra representada nas fábricas de armas e nas masmorras onde estiveram aprisionados representantes da Inconfidência Mineira, são bem dispostas de forma a não causar nenhum tipo de sensação ruim à nós. A antiga Capela, ainda preservada, hoje é a Biblioteca do local. E existe um pequeno museu cartográfico, com detalhes do início desse serviço no Brasil. FOTO 17/18/19. Tanto eu como minha irmã Regina, nos sentimos bem emocionadas, principalmente quando entramos na masmorra onde esteve, comprovadamente, o último prisioneiro do tempo da Inconfidência Mineira, Thomaz Antonio Gonzaga , que dizem por amor, escreveu em suas paredes um trecho do poema Marília de Dirceu
“Por morto, Marília, aqui me reputo: Mil vezes escuto o som do arrastado, e duro grilhão. Mas, ah! Que não reme, não treme de susto o meu coração. A chave lá soa na porta segura; abre-se a escura, infame masmorra da minha prisão. Mas, ah! Que não treme, não treme de susto o meu coração. Já o Torres se assenta; carrega-me o rosto; do crime suposto com mil artifícios indaga a razão. Mas, ah! Que não treme, não treme de susto o meu coração. Eu vejo, Marília, a mil inocentes, nas cruzes pendentes por falsos delitos, que os homens lhes dão. Mas, ah! Que não treme, não treme de susto o meu coração. Se penso que posso perder o gozar-te, e a glória de dar-te abraços honestos, e beijos na mão. Marília, já treme, já treme de susto o meu coração. Repara, Marília, o quanto é mais forte ainda que a morte, num peito esforçado, de amor a paixão. Marília, já treme, já treme de susto o meu coração.” 
Voltamos à Praça Major Valo, aonde chegamos à famosa Rua do Jogo da Bola cujo nome tem várias explicações: relativos aos escravos que se divertiam acorrentados a uma bola, ou um jogo de “bocha”, praticado pelos moradores portugueses..., vai saber! Essa rua tem uma magnífica vista da região portuária, acompanhando a muralha de pedra da Fortaleza da Conceição. E nos deparamos com mais um conjunto de casas antigas, com suas semelhanças aos tradicionais bairros de Portugal. Apesar das transformações urbanas ao seu redor, o Morro da Conceição permanece como lugar de moradia, nos fazendo sentir no interior, em plena cidade grande. Algumas com as datas de construção ainda em destaque, outras com pequenas modificações, mas uma em particular chamou a atenção de minha irmã Regina. As telhas do beiral. Quando ela me chamou não acreditei no que estava vendo. Telhas pintadas em tons de azul, combinando com a cor da casa. Fiquei sabendo que essa era uma casa de senhores portugueses de posses, pois esse tipo de telha era encomendado pelos moradores. Outro mimo doce e agradável foi a paradinha na casa do nosso guia, para recarregar nossas energias. Um lanche da tarde, embaixo do pé de graviola e com a vista do porto, bastante agradável. 
Seguimos pela Rua do Jogo da Bola, e paramos na pequena capela em homenagem à Nossa Senhora da Conceição,construída no topo do morro, em 1590, pela devota Maria Dantas. Ao final uma pracinha, com uma bela vista, onde o clima interiorano nos faz desejar ainda mais morar por ali. Depois fomos ao Observatório do Valongo, inaugurado em 1924, sede do Departamento de Astronomia da UFRJ. Foi então que, na curva para a entrada do observatório, me deparei com a paisagem onde podia ver o prédio no qual trabalhara por tantos anos e a sala de onde observava aquele local, com tanta curiosidade. Foi meio que um choque. Tudo muito diferente.   
 
E a história viva, impregnada e com o choro do samba...
Então começou a parte que realmente mais me emocionaria. Não que nada já visto até aqui, tivesse passado em branco, até porque acho que detalhei em minhas impressões e emoções.  Mas descer as escadarias em direção ao ponto em que me referi no início do “post”, onde me embevecia só de imaginar aquele local em sua plenitude, estava sendo muito especial para mim. Eis que chegamos a parte alta do “Jardim Suspenso do Valongo”.  E eis uma foto, do que eu costumava ver, e do que estava vendo naquele momento. Claro que é um trabalho possível, mas da janela do prédio ao fundo, eu nunca imaginei que veria esse lugar tão lindo! Esse jardim fica, exatamente, em um ponto em que era feito o mercado de escravos, no século XIX, mas foi inaugurado em 1906, com o alargamento da Rua do Valongo. Ao lado dele ainda existe um casarão em ruínas, que foi pintado por Debret, e a praça onde antigamente era realizado o comércio, sendo extinto oficialmente, em 1831.  No jardim, passeava a nata da sociedade brasileira, e faziam parte desse jardim, a Casa da Guarda e o Mictório Público. 
 
Descemos mais uma escadaria, seguindo ao local que já foi o “Cais do Valongo”, e também posteriormente chamado, o “Cais da Imperatriz”. O “Cais do Valongo”, construído em 1811 para substituir o desembarque e comércio de africanos na atual Praça XV, região central da cidade. Em 1843, foi remodelado com requinte para receber a Princesa Teresa Cristina, noiva do futuro Imperador D. Pedro II, e passou a se chamar “Cais da Imperatriz”. Com as reformas da cidade no início do século XX, o cais foi aterrado em 1911. Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico, agora monumento preservado e aberto, para nossa alegria. Do cais seguimos em direção ao “Largo de São Francisco da Prainha”. É um local de especial importância para a cultura negra carioca e para os amantes do samba e do choro. Pode ser considerada como o núcleo simbólico da região chamada de Pequena África, que era repleta de casas coletivas ocupadas por negros escravos e forros. Nesse local foi inaugurado em 2009 o Restaurante Angu do Gomes o famoso "carioca/aportuguesado angu" do Rio de Janeiro, desde a década de 50, quando várias barraquinhas se espalhavam pelas praças da cidade e viraram um ícone da noite e da boemia.
 
 
Ali se localiza a famosa “Pedra do Sal”, onde se reuniam, no séc. XX grandes sambistas do passado, como Donga e Pixinguinha. A "Pedra do Sal" possui esse nome, porque era
descarregado na rocha por africanos escravizados no século XVII. Os degraus foram esculpidos para facilitar o trabalho de subir na pedra lisa. A partir da segunda metade do século XIX, estivadores se reuniam no local para cantar e dançar. Dali, os moradores saudavam os navios que chegavam da Bahia com familiares e amigos. A Pedra do Sal era, para migrantes, o que é hoje o cristo Redentor para os recém-chegados ao Rio: o primeiro abraço e o primeiro sentimento da cidade. Os moradores e seus migrantes eram predominantemente negros baianos retornados da Guerra do Paraguai  ou em busca de melhores condições de vida. Lá, se encontraram as célebres tia, pretas forras e suas "pensões", onde o batuque e o jongo se transformaram em partido alto. Os negros e suas tias participaram dos principais eventos da cidade como a Abolição, a Revolta da Armada, as greves, a Revolta da Chibata e outros. A Pedra do Salé um monumento religioso do povo carioca. Na virada do século era cheia de templos afro-brasileiros, e se faziam despachos e oferendas. Na Pedra do Sal, surgiram os primeiros ranchos carnavalescos, afoxés e rodas de samba. E em quem eu e minha irmã pensamos logo? Nosso pai, Waldemar, funcionário do porto e que provavelmente passou muitos plantões curtindo um samba naquele local. Hoje podemos curtir várias rodas de samba no local, tanto na Pedra do Sal, como no Largo da Prainha. Durante o período de carnaval desfila o “Bloco Escravos da Mauá”, criado em 1993.
De lá seguimos para a Igreja São Francisco da Prainha. O mar chegava quase até a orla do Morro da Conceição, com uma extensa, mas estreita, faixa de areia, onde os pescadores amarravam as suas embarcações, daí o nome de Prainha. A igreja começou a ser construída em 1696, mas apenas em 1738, acapela achava-se inteiramente pronta. Do lado de fora tem estilo barroco, os cantos são de pedra e seu interior é de estilo gótico. Estava chegando ao fim nosso passeio guiado, ainda nos restando uma passada na portaria do primeiro arranha-céu da América Latina, inaugurado em 1930, o “Edifício A Noite”, que abrigou o jornal "A Noite" e hoje é reconhecido por ser sede da Rádio Nacional, aquela da "Era do Rádio" . Dentro deste circuito ainda existem dois lugares que devem ser visitados, como o “Centro Cultural José Bonifácio” que foi o primeiro colégio público da América Latina, cujo palacete fica na Rua Pedro Ernesto nº 80, na Gamboa, é um centro de referência da cultura afro-brasileira. E na Rua Pedro Ernesto nº 32, o “Instituto Pretos Novos (IPN)”, o maior cemitério de escravos das Américas.
Deixo aqui um convite, não apenas para os turistas de fora da cidade do Rio de Janeiro e de outros países, mas aos moradores, que não conhecem essas maravilhas, que visitem esse pequeno paraíso com cara de interior e seus arredores com toda a história da cultura africana no Brasil. Aproveite os passeios guiados, como esse que fiz com minha irmã. E curta um pouco dessa parte da cidade do Rio de Janeiro,  que costumava ficar de fora dos roteiros turísticos. Quem sabe, como eu, ir brincar em um “Bloco de Sujo”, em pleno Morro da Conceição, no carnaval...
Inspirar é isso. Descobrir no seu mundo e no seu espaço a riqueza de uma paixão e a nostalgia de raízes...belíssimo exemplo de cultura e ânsia pelas pequenas coisas da vida...obrigado prima irmã...meus poucos anos no Rio (nasci no Rio, mas saí de lá em 1978) me deixou essa vontade louca de desbravar minha história....
 

08 outubro, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

TIRADENTES/MG ...E lá fomos nós para uma corrida de aventura...X-TERRA


Então, como falei no post anterior....me atrevi a acompanhar um grupo de atletas para a X-TERRA em Tiradentes-MG, por 03 bons motivos: conhecer a cidade e sua história, desfrutar a gastronomia e, claro, vivenciar a corrida de aventura....coisa assim... bem exótica né? A história me fascina. E a história do nosso país é belíssima e cheia de peculiaridades. Minas Gerais é uma das maiores protagonistas dessa história. Tiradentes, que foi parte da rota do Ouro no Brasil colônia, tem seu nome por causa de um mito que surgiu na época dos movimentos republicanos que se multiplicavam. Foi assim que Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, tornou-se o mártir que liderou o movimento chamado de Inconfidência Mineira em confronto aos mandos e desmandos do Império. O mais peculiar é que a própria construção desse mito e mártir tem controvérsias e pontos obscuros, ainda não desmistificados na história. Também por ser uma cidade abastada em ouro, foi um dos berços do barroco brasileiro, com toda a exuberância e riquezas hoje preservadas arquitetonicamente.

Apenas para marinheiros de 1ª. viagem..
Para os mais curiosos, acho importante falar que o Barroco (origem na Itália entre os séculos XVI e XVIII) foi  difundido fortemente pela Igreja Católica que tinha interesses em reter os fieis, porque vivia o período da reforma. Era através dos elementos e da suntuosidade da arte Barroca que a Igreja impressionava as pessoas. Eu não sou “expert”, mas aprendi identificar o Barroco quando observa-se as seguintes características : muita exuberância porque o “excesso” atraía os fiéis, curvas, exagero das formas, relevos, dourado, contrastes e cores e a dramaticidade. No Brasil, o Barroco veio junto com os jesuítas e sofreu influências negras e indígenas (séculos XVIII e final do século XIX). Nessa região de Minas, onde havia muita riqueza, era um excelente cenário para seu desenvolvimento. Acredito que todas (ou quase todas) as igrejas dessa região refletem a arte Barroca em função desse período e do poder que a Igreja tinha na época da colonização. O mais conhecido representante foi Aleijadinho uma grande, senão a maior, referência do estilo Barroco Mineiro. Tem também o estilo Rococó (ramificação do movimento Barroco) que observa-se nas fachadas exageradamente ricas em adornos e ornamentações detalhadas em imagens de folhas e flores. É isso....tem que saber um pouco de arte né?

Estrada Real
 Descobri a beleza da Estrada Real(certamente será uma viagem futura), caminho trilhado pelos colonizadores/bandeirantes durante o ciclo do ouro em Minas Gerais, onde se transportavam as riquezas e mercadorias até o Rio de Janeiro ou São Paulo. Hoje a Estrada Real é um atrativo turístico (criado oficialmente em 2001), com mais de 1.000 km que podem ser percorridos com grandes surpresas e aventuras, passando por Minas, Rio e São Paulo. São 3 caminhos diferentes : Caminho Velho, Caminho Novo e Rota dos Diamantes. Fazer qualquer desses caminhos é a certeza de encontrar construções coloniais, igrejas, museus, reservas ecológicas, ecoturismo, esportes radicais, cachoeiras, trilhas e claro, um reencontro com nossas raízes. Então, Tiradentes é tudo isso e deve ser visitada várias vezes. Conheci uma cidade “intimista” e “simples”, com um tempero de Brasil Colonial. A maior parte dos monumentos está ao redor e são fáceis de serem identificados e visitados. Isso sem falar na simpatia do povo mineiro e na rica gastronomia. Meu roteiro foi simplificado porque o objetivo maior era participar da X-TERRA. Inclusive, o evento combina muito com a cidade, contrastando a rusticidade e delicadeza da cidade coma rusticidade e beleza da natureza. Tive a oportunidade ter “pitadas” de Tiradentes e recomendo muita calma e seleção de atividades porque não é local para se visitar correndo. Tiradentes é como um bom vinho e uma boa companhia...vá devagar, pouco a pouco e sem pressa, conheça, apaixone-se e se envolva .. enfim....

Conhecendo um pouco a cidade....
A pousada que fiquei Pousada Solar Imperial  de uma delicadeza no atendimento e um café da manhã.... maravilhosos. Recomendo... além de ser muito bem localizada.  A organização da Conquistare Turismo Esportivo e Lazer foi perfeita. Recomendo!
Matriz de Santo Antônio – essa Igreja já valeu a viagem inteira. Foi o 1º. Local que conheci. Construída em 1710, é a segunda igreja em ouro do Brasil (sendo a primeira em Salvador-BA). O caminho para se chegar lá já vem cheio de pequenas surpresas. São casas, antiquários, arquitetura colonial, lojas, enfim...um passeio dentro dos costumes do século XVIII. A paisagem que a vista externa proporciona é um presente à parte. No interior da Igreja, a sensação foi de êxtase, quando me deparei com a exuberância da decoração. Ouro e mais ouro. E aí entendi o propósito da Igreja em atrair fieis com a beleza e a imponência. Uma vista de 360º. e parece que uma história inteira está viva. Ainda tem um órgão datado de 1788, considerado um dos quinze mais importantes do mundo.
Caminhando pela cidade, passamos pela Ponte sobre o Ribeirão Santo Antônio que tem as arcadas parecidas com o estilo romano. No caminho encontramos a Igreja Nossa Senhora das Mercês, com o estilo rococó que pertencia à irmandade dos pretos crioulos (os pretos nascidos no Brasil).  Bem perto dali tem a Igreja Nossa Senhora do Rosário onde São Benedito aparece com destaque (deve ser porque é padroeiro dos pretos escravos). Todos os caminhos parecem convergir para a Praça onde está o Monumento a Tiradentes, construído 1892. Ao redor da praça, uma feira típica de artesanatos, lojas e restaurantes. E tomando fôlego, siga a rodoviária e suba a ladeira que leva ao largo São Francisco, onde está a Igreja de São Francisco de Paula e mais uma visão da paisagem surpreendente, com a Igreja Matriz de Santo Antônio ao fundo. Instalada no alto de uma colina, a capela acabou se transformando num mirante, onde tive a vista do cartão postal da histórica Tiradentes.

















A gastronomia é um capitulo à parte. Pelo pouco tempo que fiquei, tivemos a oportunidade de conhecer lugares bem interessantes:
Armazem dos Saboresna fachada e entrada parece um armazém, mas ao fundo tem um restaurante muito agradável e com uma musica mineira ao vivo de qualidade. Para tomar um bom vinho, curtir a noite, a musica de minas...e quem sabe...encontrar o Milton Nascimento por ali?
Spaghetti Cantina italianaTive a chance de conhecer esse local porque depois da corrida todos queríamos comer PIZZA....o Luciano tinha visto o restaurante à tarde e seguimos para lá à noite. A proposta é uma cantina tradicional. Inclusive, não é FAST FOOD...não vá com pressa...é um local para deleite e prazer.
Rocambole & Cia : era uma parada estratégica para os doces com café. Também descoberto pelo Luciano. Tradicional em rocamboles dos mais variados sabores é uma alegria para quem precisa de doces....fiquei cliente cativa.
 
Vamos ao que interessa? Corrida X-TERRA....
Agora, vamos falar o 3º. Objetivo desta experiência que foi o diferencial da viagem e o que me motivou a ousar - A corrida de aventura – X-TERRA. Toda aquela preparação que postei junto com o Luciano, se consolidou aqui. O programa preparado pelo professor Meidson Torres foi o grande diferencial, somado à orientação do Filipe Aragão...eles foram a prova real de que a orientação é fundamental. O Luciano, como vocês sabem, profissional de tudo e eu, amadora e cheia de ansiedade e medo. Chegamos em BH e tivemos um transfer de cerca de 4 horas para Tiradentes. O grupo, totalmente integrado já tinha se reunido em outras viagens como essa. Eu era um estranho no ninho, mas em questão de minutos já me sentia parte, dada a acolhida que recebi. Cada um com uma simpatia especial e cativadora, porém pessoas muito diferentes. O que os uniu? A paixão pela corrida. Obrigado aos novos amigos e companheiros de corrida : Luciano Freire, Neslita, Lilian, Paulo Eustáquio, Paulo Roberto, Juliana Frade, Marcelo Baiano, Alexandre, Heidi, Simone, Campoi e Mildred...e claro....aos treinadores Meidson Torres e Filipe Aragão.
O sábado foi reservado para a concentração. De manhã buscamos os kits (camisa, lanterna e numero) e nos integramos à estrutura do evento. A cidade estava lotada de atletas e simpatizantes das mais diversas modalidades: duathlon, corredores amadores, profissionais, ciclistas, enfim...um shopping esportivo a céu aberto montado para receber os participantes e simpatizantes. Minha largada foi às 19hs. Fiz o percurso oficial de 7,5 km (8,3 km no meu relógio) num tempo de 57 minutos. Tive a classificação de 87º, no grupo de mulheres (cerca de 350 pessoas), sendo o grupo total de cerca de 1.500 pessoas. Conto isso com a certeza de que fui bem na prova, mas no dia da corrida me senti um tanto “frustrada”. Vou explicar: 
Eu treinei o corpo muito bem, graças a TIME (Meidson Torres e Filipe Aragão), porém, esqueci de preparar a mente para a corrida. Então eu era pura ansiedade e medo antes e durante a prova. Sentimentos que só agora entendo que foram necessários para que certa cautela fosse mantida, mas que me prejudicaram no desempenho e mexeu com minha veia competitiva. Durante a corrida, a lua estava cheia e a vista era maravilhosa, mas eu tinha que manter os olhos fixados no chão e à frente para não ter nenhum acidente. O cenário contribuiu muito para tudo isso : frio (cerca de 10º.), ruas da cidade histórica com aqueles paralelepípedos irregulares e escorregadios, subidas e descidas (dignas das cidades mineiras), estrada de terra, rio e lama, pedras escorregadias na terra, caminhos tortuosos, muita gente na corrida querendo ultrapassar e a tal da lanterna na cabeça que não me ajudou muito...tudo isso à noite! Entenderam?
Então quando eu terminei a corrida estava anestesiada pelo medo de antes e durante a prova. Claro que me senti grata por ter cumprido o percurso, por não ter me machucado e por ter “acabado” o sofrimento. Fazer os 8km não foi problema. A questão mais difícil foi enfrentar minha ansiedade e medo, pois nessa corrida eu tinha a descrição do percurso, sem a noção da dificuldade com minhas condições físicas. E, tenho que confessar...eu tive pavor de não conseguir concluir a prova (prontofalei!!!!). Outra questão bem interessante é que eu não tinha o controle dos riscos durante a corrida. Isso me consumiu pois eu sou extremamente planejada e administro os riscos com o máximo possível de conhecimento.  Bom, a questão é que concluí a prova e alcancei meu propósito. Os reflexos disso tudo posso resumi-los no seguinte: tive dores e cansaço fora do normal (o percurso nem era tão longo assim), fiquei um pouco decepcionada por não ter aproveitado com mais prazer a prova e frustrada porque poderia ter feito num tempo menor e eu sabia que meu corpo estava preparado.  Por outro lado, senti-me orgulhosa e feliz com a minha disciplina, pois cada treino de terra e grama me foi extremamente útil (não senti nada nos joelhos e nem tive dificuldades com a irregularidade do percurso), fiquei feliz com a ousadia de “entrar no carão” nesse grupo de atletas e conhecer pessoas especiais que tem uma paixão em comum. E o melhor de tudo foi cair na real e perceber que programo direitinho minhas escolhas com um certo “excesso de segurança”. Talvez eu precise de um pouco do “desconhecido” para apimentar a vida...e mais ainda....voltei com planos reais de melhorar minha saúde e meu desempenho....voltei com a certeza que vou continuar correndo...e dançando flamenco....repetir esse percurso numa outra dimensão...correr pela vida com mais irregularidades, emoção e no escuro!
E o Luciano, como vocês acham que ele decifrou essa experiência?

Faaaala galera!
'Poizé'! Mais uma prova corrida e curtida! Dia 29/09 as 18hs largamos eu e a galera da TIME para mais uma corrida de aventura, essa em Tiradentes. Bom, antes de nós, às 14hs, 3 incríveis guerreiros - Marcelo 'Baiano' Mendes, Paulo Maluco Eustáquio e Heidi Cristina Barcelona - haviam largado para um grande desafio - 50km. Eu preferi ficar nos 20km noturnos (eu e outros guerreiros!). Nossa largada aconteceu às 18hs. A corrida começava no centro de Tiradentes, e percorria várias de suas ruas históricas, antes de entrar na mata a noite. Galera... pense num percurso pancada! O piso em Tiradentes de auspicioso não tinha nada. Aquelas pedras além de não amortecer em nada o impacto ainda deixam a pisada bem instável (até agora estou sentindo vários músculos nos pés que eu nem lembrava que existiam!). Depois que entrávamos na mata melhorava o quesito impacto nas articulações mas a dificuldade não diminuía.
Para enxergar alguma coisa do caminho, todos corremos com lanternas na cabeça. (A minha no final começou a escorregar e já estava me irritando profundamente). Homi... era um sobe e desce, lama, riachos no caminho, um monte de "mata-burro" que exigia cuidado (ou então beijinho-beijinho-pau-pau). Mas correr só com lua acima de nós é um grande espetáculo.
Sai muito forte e depois paguei o preço. Nos últimos kms da prova não conseguia mais correr nas subidas, e apenas caminhava forte (mesmo assim a respirava como se fosse morrer). Nas descidas eu compensava sempre imprimindo ritmos fortes (pace médio de 4:00 - 4:10 min/km).  No meio do caminho ainda passei pelo Paulo e Marcelo, mas só tive tempo de gritar "TIMEEEEE".  Entrando em Tiradentes também cruzei com o pessoal dos 7.5km e vi inclusive a Andrea que estava acabando de sair da mata. Ainda gritei " Aêêêê Guerreira!".
Cruzei a linha de chegada em 1h44min, e fui o 31º colocado masculino dessa prova. Fiquei bem satisfeito com o resultado, mas fiquei bastante dolorido no dia seguinte (minha musculatura foi bastante exigida). Meu tênis agora é um barro só e as meias eu simplesmente descartei! E por causa do pé molhado fiquei com bolhas nos pés e um corte no calcanhar direito.
Mesmo assim recomendo muito essa prova! Foi muito legal. Não só pelo percurso, mas por tudo. A arena sempre montada ali e todos aqueles atletas circulando, e a música rolando... isso é o que se pode chamar de carnaval de atleta.
Tiradentes
Muito mais que a corrida, esta viagem também me deu a chance de conhecer a cidade histórica de Tiradentes. E curti bastante. A cidade é linda, limpa e as pessoas lá te atendem super bem. Isso sim é saber fazer turismo. Conheci a igreja de Santo Antônio, com obras de Aleijadinho, que fica no alto da cidade... belíssima!
Fique numa pousada excelente. Os donos nos trataram super bem, a comida deliciosa, e os quartos beeeem confortáveis. A quem se interessar, ficamos na Pousada SOLAR IMPERIAL. O problema é comer demais! Todo lugar se come muito bem! O turismo lá, aliás, é parecido com aquele visto em Pirenópolis- GO, na Chapada... eu pelo menos curto bastante! História e natureza e ótima comida. Bom... quanto aos detalhes de Tiradentes, deixo para Andrea Pires ( Blog "Com Salto e Asas") contar, porque minha impaciência ariana me impede de continuar escrevendo !
E nessas viagens, claro, sempre há o pessoal doido da corrida... é uma verdadeira risoterapia! Tudo bem que segundo o Paulo eu andei destruindo casamentos com uma brincadeira que eu fazia com meus alunos de inglês em Campina Grande (rosas vermelhas ou brancas? Estrada longa ou curta? Dormindo ou acordado? rsrsrs.... acho que vou escrevê-la no blog algum dia!), mas o saldo geral foi positivo!!
O ruim foi chegar tarde em cada no domingo e ainda encarar supermercado e começar a semana mal dormido de novo... buá buá buá!
Agora sigo com os treinos para a Golden Four em Novembro! RUUUUUUUUNNNNNN!!!!!!
Cheers”

Então é isso....dá para perceber que eu e Luciano conseguimos (cada um com seu objetivo) cumprir e realizar....cada um de nós com a sua limitação e seus desafios pessoais. E isso me inspirou muito, porque o que vale mesmo são as experiências que ousamos e que tornam-se grandes histórias a serem compartilhadas.
 

Andrea Pires

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